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Há 90 anos nascia Che Guevara

Ele passou a vida inteira abandonando família e amigos para fazer revoluções. Morreu antes de completar 40 anos

quarta 13 junho, 2018
O revolucionário Che Guevara
O revolucionário Che Guevara Foto:Wikimedia Commons

Em 1956, ele ainda não se tornara um mito. Era apenas um rapaz com a cabeça cheia de ideais e um enorme espírito de aventura pulsando nas veias. Antes de embarcar para Cuba, onde faria a revolução, escreveu uma carta amorosa endereçada à mãe, na Argentina: "Agora vem a parte mais difícil, velha, aquela da qual nunca fugi e sempre gostei". E emendou com as seguintes palavras, na tentativa de tranquiliza-la: "Os céus não ficaram negros, as constelações não saíram de suas órbitas, nem houve enchentes ou furacões insolentes. Os signos são bons. Eles indicam a vitória".

Ao receber a correspondência, Celia de La Serna reconheceu o colorido de sempre na escrita do filho. Era próprio dele aquele tipo de frase bem elaborada e o estilo fluente, sonoro, aprendido na leitura dos muitos poetas que ela mesma havia lhe apresentado alguns anos antes. Mas Celia tinha motivos de sobra para temer pela sorte do rapaz.

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Guevara sempre tivera a saúde frágil. Nascido com apenas oito meses de gestação, aos dois anos de idade já sofria com acessos incontroláveis de asma. Por isso, crescera em meio aos livros, recolhido à nada modesta biblioteca familiar, de mais de 3 mil volumes. Em vez de acompanhar os colegas de bairro e colégio nas costumeiras brincadeiras infantis "correr, pular, saltar", tornara-se um ávido leitor de poesia e romances. Durante muitos anos, sequer pôde ir à escola. Nesse período, foi a mãe quem se encarregou pessoalmente da instrução do garoto.

Estilo grunge

Nascido no dia 14 de junho de 1928, em Rosário, na Argentina, Ernesto Guevara Lynch de La Serna vinha de uma família que não era pobre, embora precisasse fazer algum esforço para equilibrar o orçamento. Seu pai, Ernesto Guevara Lynch, viu naufragar sucessivas tentativas de montar o próprio negócio. E a mãe, quando não estava educando os cinco filhos, era feminista, socialista e anticlerical.

Depois de crescido, Guevara tornou-se um rapaz de aparência eternamente descuidada. Andava com o cabelo sempre despenteado, os sapatos desamarrados, a camisa meio suja. "O homem que cativaria milhões com o encanto do olhar, do sorriso e dos gestos, nunca se esmerou em cuidar de sua vestimenta", reconheceria o escritor Jorge Castañeda, autor de Guevara: A Vida em Vermelho. Como não trocava muito de roupa e passava dias seguidos sem tomar um único banho, na juventude, chegou a receber o apelido pouco lisonjeiro de chancho, "porco" em espanhol.

Che Guevara antes da viagem pela América do Sul, em 1951 Wikimedia Commons

Por outro lado, Ernesto buscava superar o problema de saúde com ousadas demonstrações de arroubo pessoal. Para vencer as próprias limitações, tendo sempre à mão a bombinha contra ataques de falta de ar, começou a jogar rúgbi e dedicar-se intensamente à equitação e ao alpinismo. O esporte foi a forma que encontrou, incentivado principalmente pelo pai, de fugir do isolamento e fazer amigos. "Ele ansiava por camaradagem, não por liderança", escreve o jornalista americano Jon Lee Anderson, seu principal biógrafo, em Che Guevara: Uma Biografia.

No final de 1951, aos 23 anos, Guevara e um colega de faculdade de Medicina, Alberto Granado, iniciaram uma viagem de moto pela América do Sul. Com uma Norton de 500 cilindradas, percorreram mais de 13 mil quilômetros, da Argentina até a Venezuela. Foi durante essa odisseia que se deu a definitiva conversão política de Ernesto.

Em junho de 1953, já convertido ao marxismo, Guevara empreenderia uma nova viagem. Depois de visitar Bolívia, Peru, Equador, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras e El Salvador, decidiu permanecer algum tempo na Guatemala. Àquela altura, o presidente guatemalteco Jacobo Arbenz Guzmán levava a cabo profundas transformações sociais no país, incluindo um amplo projeto de reforma agrária. Ernesto quis ser testemunha daquela experiência histórica, depois de peregrinar por um continente pontilhado de cima a baixo por ditaduras e tiranias.

Na Guatemala, passou por apertos financeiros e conheceu Hilda Gadea, uma militante socialista de traços indígenas, que pouco tempo depois lhe daria uma filha. "Hilda tem um coração de platina. Sinto seu apoio em todos os atos de minha vida diária (a começar pelo aluguel)", confidenciou em carta aos pais. Foi mais ou menos nessa época que ele ganhou o apelido que incorporaria ao nome: "Che", a expressão coloquial argentina para "companheiro" (é a mesma que o "tchê" gaúcho), que ele não cansava de repetir, em suas conversas com os amigos centro-americanos. 

Che Guevara em 1958 Wikimedia Commons

Quando o presidente Guzmán foi derrubado por um golpe financiado pelos Estados Unidos, Ernesto Che Guevara buscou refúgio no México. Lá conheceria os irmãos cubanos Fidel e Raúl Castro, que conspiravam no exílio para depor a ditadura de Fulgêncio Batista. "É um acontecimento político ter conhecido Fidel Castro, o revolucionário cubano", anotou no diário. "Ele é jovem, inteligente, seguro de si e tem uma audácia extraordinária. Penso que simpatizamos um com o outro". Che ofereceu seus serviços de médico aos guerrilheiros. Mais tarde, no calor dos combates de Sierra Maestra, revelaria-se um líder entre eles. O mito começava, pouco a pouco, a tomar forma.

Tipo exportação

"É preciso endurecer, mas sem perder a ternura, jamais" diz a mais célebre de todas as frases atribuídas a Che Guevara. Bonito, mas pouco aplicável numa guerra de verdade, como foi a Revolução Cubana. Durante a guerrilha, traições e deserções eram punidas com a morte. Che era um dos mais rigorosos na aplicação de penas capitais aos companheiros que colaboravam com o inimigo. Um deles, Eutimio Guerra, informava ao Exército de Fulgêncio Batista a localização de destacamentos rebeldes nas montanhas. Foi executado pelo próprio Guevara, durante um violento temporal no meio da mata.

Assim que a ditadura de Batista foi deposta, em 1959, Ernesto assumiu a direção do Banco Nacional de Cuba. Depois, em 1961, virou ministro da Indústria. Divorciado de Hilda Gadea, casaria com uma integrante do movimento revolucionário, Aleida March, com quem teria mais quatro filhos. Mas, àquela altura dos acontecimentos, tornara-se impossível para Che Guevara permanecer como simples burocrata do novo regime. Ele queria exportar a revolução, testar na prática as teorias sobre guerra de guerrilha que havia elaborado nos anos de combate em solo cubano.

Raúl Castro e Che Guevara em Sierra Maestra, em 1958 Wikimedia Commons

No final de 1965, Che simplesmente desapareceu do mapa. O mundo só voltaria a ouvir falar dele dois anos mais tarde: estava na Bolívia, fomentando uma revolta armada contra o governo local. Antes, estivera clandestinamente no Congo, tentando organizar uma guerrilha no coração do continente africano. Nos dois casos, o herói da Revolução Cubana fracassou. Em outubro de 1967, Guevara seria capturado por soldados bolivianos. Por orientação da CIA, foi executado no dia seguinte, com uma rajada de metralhadora e um tiro de misericórdia.

Logo houve quem enxergasse uma semelhança assombrosa entre a fotografia do cadáver de Che, deitado sem camisa, de olhos dramaticamente abertos, e o quadro Lamentação sobre o Cristo Morto, do pintor renascentista Andrea Mantegna. O Exército boliviano, sem querer, havia dado ao mundo a imagem de um mártir, um "Cristo guerrilheiro" assassinado muito jovem, com apenas 39 anos, e imolado por defender suas crenças até o último suspiro.

Diários de motocicleta?

A moto de Che e Granado só resistiu aos três primeiros meses de viagem 

Réplica da motocicleta utilizada por Che Guevara e Alberto Granado Wikimedia Commons

Ao contrário do que muita gente imagina, a viagem de Ernesto Guevara e Alberto Granado, de dezembro de 1951 a julho de 1952, não foi feita inteiramente de moto. A Norton, apelidada de La Poderosa, resistiu apenas aos três primeiros meses de aventura.

Mais tarde, Guevara e Granado agradeceriam tal incidente. "A viagem não seria tão útil e proveitosa como foi, como experiência pessoal, se a motocicleta tivesse resistido", diria o amigo de Che. A moto foi abandonada em Santiago do Chile, e a dupla continuou seguindo de ônibus, a pé, de carona ou a cavalo. Trabalhando como carregadores, marinheiros, seguranças e médicos, alcançaram o Peru. Depois, a Colômbia. E, por fim, chegaram à Venezuela, onde se separariam.

Granado arranjou emprego num leprosário e ficou morando em Caracas por um tempo. Guevara conseguiu embarcar num avião de carga e retornou à Argentina, com uma longa escala em Miami. Depois de alguns dias nos Estados Unidos, voltou para casa sentindo-se outro homem, modificado pela experiência junto às comunidades pobres que visitara no continente sul-americano. "A pessoa que escreveu estas notas morreu ao pisar de novo em solo argentino", resumiu em seu diário de viagem.

Saiba mais 

Che Guevara: Uma Biografia, Jon Lee Anderson, Objetiva, 2005

Che Guevara: A Vida em Vermelho, Jorge G. Castañeda, Companhia das Letras, 1997

Lira Neto


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