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Revolução Constitucionalista: São Paulo queria se separar?

Hoje faz 87 anos do começo da grande guerra civil brasileira. O que os paulistas queriam?

Fábio Marton Publicado em 09/07/2019, às 00h00

Uma ruptura temporária
Wikimedia Commons

Em 9 de julho de 1932, começava a maior guerra do século 20 no Brasil. Sim, isso inclui a Segunda Guerra: seis vezes mais combatentes morreriam na indigestamente chamada Revolta (ou Revolução, para os paulistas) Constitucionalista, mais de 3 mil contra 471. Que, de revolução, não teve nada: a desejada Constituição - e democracia - veio na data que já estava prometida antes. E foi rasgada pelo mesmo Vargas meros três anos depois, no autogolpe do Estado Novo. Os paulistas estavam certos nisso: ele realmente tinha tendências a ser um ditador. Foi tudo em vão.

Mas a coisa é séria em São Paulo. A cidade é a única capital do país a não ter uma Avenida Getúlio Vargas. Duas das maiores vias da cidade atendem por 9 de julho e 23 de maio - a data em que morreram os jovens Mário Martins de Andrade, Euclydes Bueno Miragaia, Dráuzio Marcondes de Souza e Antônio Américo de Camargo, os mártires do MMDC, movimento clandestino que levaria à guerra. Também então foi ferido de morte Orlando de Oliveira Alvarenga, que faleceria em plena guerra, três meses depois. 

São Paulo tem um movimento separatista pedindo para se separar de um país que não vota como o estado. E eles frequentemente mencionam a guerra civil como um precedente ou ao menos inspiração. Afinal, os paulistas em 1932 queriam se separar do Brasil?

A resposta é: de jeito nenhum. Em primeiro lugar, o plano era uma revolução nacional. Os paulistas contavam com a adesão de Minas e Rio Grande do Sul, para uma ofensiva fulminante contra o Rio de Janeiro, apeando Vargas do Palácio do Catete. Havia promessas vindas de aliados nesses estados, mas, ao cair das cortinas, a revolução não decolou por lá. Ainda assim, as primeiras manobras militares foram na direção do Rio, terminando barradas.

Crédito: Wikimedia Commons

 

Em segundo, basta ver o que os paulistas escolheram para representar o estado – a figura do bandeirante. Estava em todo o lugar, nos discursos, nas notícias enviesadas da imprensa, nos cartazes de propaganda. Bandeirantes, se você faltou à aula, são os violentos aventureiros que se embrenharam mata adentro, descobriram e fundaram quase todo o interior do Brasil: Minas Gerais mais todo o Centro-Oeste e o Norte. 

Mas havia, de fato, uma situação confirmada: fazendo guerra sozinho, o estado não podia mais esperar derrubar o governo federal, conquistar o Brasil. E, diante dessa fatalidade, algumas vozes se levantaram para falar em separação. Uma das mais notáveis foi Monteiro Lobato. Assim ele disse, em agosto: "Após a vitória de São Paulo, na campanha ora empenhada, se faz mistér que seus dirigentes não se deixem embalar pelas ideias sentimentais de brasilidade, irmandade e outras sonoridades.[...] Ou São Paulo desarma a União e arma-se a si próprio, de modo a dirigir doravante a política nacional a seu talento e em seu proveito, ou separa-se.[...] Trata-se de uma guerra de independência disfarçada em guerra constitucionalista".

Grifo para o "dirigir doravante" e "desarma a União".  A separação era uma opção diante da impossibilidade do domínio. Paulistas como Lobato podiam ser bairristas, mas não se achavam estrangeiros no Brasil. Pelo contrário, viam a si como os pais da nação. E herdeiros de uma tradição de domínio paulista sobre a nação.