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Crenças religiosas faziam povos chineses do neolítico criarem lebres de modo especial, aponta estudo

Embora esses mamíferos não fossem domesticados como cães, a alimentação deles mudou completamente devido à interação humana

Vanessa Centamori Publicado em 12/05/2020, às 09h40

Representação de lebre do neolítico
Representação de lebre do neolítico - Divulgação

Os povos do neolítico que viveram na região da China tinham um relacionamento próximo com as lebres, segundo um novo estudo conduzido por pesquisadores chineses. Acredita-se que esses animais não eram domesticados como cães, mas mesmo assim eram criados de modo especial e tinham uma importância significativa devido à crenças culturais e religiosas. 

De acordo com os pesquisadores, o contato com os humanos fez com que o comportamento e alimentação desses pequenos mamíferos fosse alterado. Para chegar à essa conclusão, os especialistas examinaram ossos tanto das lebres quanto de humanos provenientes da comunidade agrícola neolítica em Yangjiesha, no norte da China. 

As ossadas haviam sido encontradas em um sítio arqueológico em Loess Plateau, que representa uma região ocupada por agricultores da Idade da Pedra com enorme importância no início da história da China.

A área foi ocupada pela primeira vez entre 2900-2800 aC. No local foram encontrados 54 ossos de uma lebre do deserto, uma espécie comum na Eurásia. Colágeno foi extraído desses fósseis, assim como de ossos humanos e de cães.

Segundo comunicado, a análise das ossadas revelou "diferentes alimentos com diferentes proporções de certos isótopos, que o corpo usa para construir ossos". A partir disso, os pesquisadores conseguiram entender como era a dieta das lebres que viveram com os humanos do neolítico.

Esses animais, segundo a pesquisa, comiam principalmente plantas silvestres. Porém, o diferencial da área foi que por lá esses mamíferos também consumiam milho em grandes quantidades - em média, 20% da alimentação tinha base nesse cereal.

Milho-miúdo ou milhete, espécie consumida pelas lebres no neolítico / Crédito: Wikimedia Commons 

 

Os especialistas concluíram então que as lebres estavam sendo afetadas pelo cultivo de milho-miúdo por parte dos povos chineses. Isso pois na zona estudada, não era possível plantar arroz.

Não por acaso, segundo o comunicado, "o milho-miúdo se tornou o combustível por trás dos principais desenvolvimentos sociais nessa área". A dieta das lebres assim era semelhante à de um porco domesticado pelos chineses. Acredita-se que elas eram alimentadas e possivelmente protegidas pelos seres humanos locais, que atribuíram a esses animais significados religiosos e espirituais.