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Estudo sugere que cultura mesoamericana de 2 mil anos conhecia o magnetismo

Objetos construídos pelos pré-maias de Monte Alto sugerem entendimento sobre forças de atração

Joseane Pereira Publicado em 07/08/2019, às 10h00

Escultura de Monte Alto
Escultura de Monte Alto - Reprodução

Figuras de pedra em grandes proporções, que sugerem profunda compreensão sobre as forças magnéticas. Esses objetos não pertenceram a filósofos gregos ou a alquimistas do século 16, mas a uma cultura que existiu na Mesoamérica, séculos antes dos Maias.

Povos do Pacífico

A cultura de Monte Alto vivia em extensas comunidades na costa do Pacífico. Florescendo entre 500 a.C. e 100 a.C. na atual Guatemala, eles teriam encontrado maneiras de identificar a magnetização dos objetos - isso é o que sugere um novo estudo, publicado no Journal of Archaeology, que identificou o uso de pedras atingidas por relâmpagos para a construção de cabeças e esculturas inteiras. 

 “É um assunto fascinante para mim. É uma dessas coisas sobre as quais nunca pensaríamos, mas precisamos começar a fazer essas perguntas”, afirmou Oswaldo Chinchilla, professor de Antropologia na Universidade de Yale e co-autor do estudo. “As pessoas notaram e às vezes mediram o magnetismo desde tempos muito antigos.”

Cabeças magnetizadas de Monte Alto / Crédito: Reprodução

 

Embora Chinchilla afirme que as esculturas de Monte Alto são “as mais impressionantes” do local, outras esculturas também são encontradas em torno do que hoje é a Guatemala, e El Salvador, sugerindo um intercâmbio cultural entre esse povo e os Olmecas.

Magnetismo poderoso

Os pesquisadores analisaram 11 figuras de basalto, esculpidas de tal forma que as partes protuberantes (cabeça e umbigo) tinham maior poder magnético – comprovado pelo pesquisador Roger Fu, do Departamento de Terra e Ciências Planetárias de Harvard, que também participou do estudo. Utilizando um magnetômetro para testar as esculturas, ele mapeou as anomalias mais fortes.

 “[O povo de Monte Alto] escolheu os pedregulhos e os moldou de tal maneira que o magnetismo seria mensurável em certos pontos da anatomia das esculturas”, afirmou Oswaldo Chinchilla. Das 11 amostras, quatro exibiam o máximo magnetismo na barriga, e três, ao redor de suas têmporas e bochechas direitas.

Crédito: Reprodução

 

Outro ponto interessante é que as esculturas inteiras apresentavam a mesma característica: figuras nuas com as mãos apoiadas na barriga. Isso sugere a continuidade de um padrão simbólico, que representaria força e poder. Para Chinchilla, as esculturas poderiam representar os mortos devido às suas proporções inchadas, homenageando antepassados e ex-líderes.

Se este fosse o caso, os escultores podem ter explorado as propriedades magnéticas para reforçar o controle político sobre a população. "A capacidade dessas esculturas de desviar uma bússola em tempo real teria parecido muito impressionante para um público, dando a ilusão da persistência de vida nesses objetos", afirmou Roger Fu.

No atual estado mexicano de Veracruz, arqueólogos também detectaram uma barra magnetizada rica em hematita, datada de 1400 a.C a 1000 a.C. Caso o objeto tivesse função social, o conhecimento mesoamericano teria antecedido as primeiras descrições de Thales de Mileto sobre forças magnéticas.

Para os pesquisadores, esse é apenas o início das investigações sobre o magnetismo antigo, que também podem atingir os Olmecas e culturas do sudoeste dos Estados Unidos.