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A curiosa amizade de um sobrevivente do Holocausto e o filho de um simpatizante nazista

Suas vidas tomaram rumos totalmente diferentes, todavia, os dois foram marcados pela guerra durante a infância

Giovanna de Matteo Publicado em 26/10/2020, às 09h59

Koenraad Tinel e Simon Gronowski recebem doutorado honorário
Koenraad Tinel e Simon Gronowski recebem doutorado honorário - Divulgação / Twitter / VUBrussel

Koenraad Tinel, filho de um simpatizante nazista, e Simon Gronowski, sobrevivente do Holocausto têm 80 anos de história. Depois de mais de sete décadas desde a segunda guerra, os dois homens se aproximam com uma amizade surpreendente. 

Eles estabeleceram uma relação amigável que hoje é considerada símbolo de fraternidade na Bélgica, país natal dos dois.

Koen e eu éramos duas crianças esmagadas por uma guerra que não entendíamos”, declarou o advogado e pianista de jazz Gronowski, em entrevista à Reuters. “Cada um de nós estava do seu lado da cerca - eu do lado das vítimas e ele do lado dos algozes", lembra o homem que perdeu sua família durante o tempo em que ficaram presos em Auschwitz.

Gronowski, de 89 anos, e Tinel, com 86, foram apresentados um ao outro pela Union des Progressistes Juifs de Belgique, em 2012, depois que publicaram suas memórias e experiências de guerra durante a infância.

Gronowski relembra o momento em que foi apresentado a Tinel. “Eles me perguntaram: 'Você concorda em conhecer o filho de um nazista?'. Sim eu concordo. Estranho, mas concordo... Aos poucos, fomos nos conhecendo melhor.”

No mês passado, duas Universidades Públicas de Bruxelas - a VUB de língua holandesa e a ULB de língua francesa - presentearam a ambos com doutorados honorários, em reconhecimento ao vínculo amistoso entre os dois: “Sua amizade única é um símbolo de poder de esperança, felicidade e paz”, afirmaram as universidades.

Gronowski tinha apenas 11 anos quando guardas nazistas o cercaram, junto com sua família e outros judeus belgas, e obrigaram todos a entrarem em um apertado vagão de trem. “Milagrosamente, pulei do trem e escapei”, contou ele.

Quase na mesma época, Tinel, que morava em Ghent, vivia uma vida totalmente diferente. Seus irmãos mais velhos faziam parte do exército nazista, e seu pai, que era artista plástico, estava ganhando a vida enquanto esculpia bustos de Adolf Hitler e oficiais da SS.

“Eu não posso ser racista. Não posso ser um nacionalista flamengo. Não posso ser um nacionalista belga. Eu sou um homem do mundo”, afirmou ele à Reuters.

Tinel, que seguiu a carreira de seu pai, hoje trabalha como um escultor e tem seu mais novo projeto exposto na cidade Bruxelas, até 1º de novembro. Seus trabalhos artísticos são inspirados nos desfiles militares que era levado para assistir durante sua juventude. O seu objetivo é explorar o medo propagado por políticas e ideologias que levam pessoas a cometer atrocidades.

Koenraad é mais do que um amigo, ele é meu irmão”, diz Gronowski, sentado ao lado de Tinel. “Não lhes trazemos uma mensagem de tristeza, mas de esperança e felicidade. Digo a todos: a vida é linda, mas é uma luta diária”.