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Divina Comédia: Um guia pelo inferno de Dante

Conheça mais sobre essa clássica história medieval cuja influência pode ser sentida em nossa cultura até hoje

Vítor Soares Publicado em 25/10/2021, às 17h56

Fotografia meramente ilustrativa
Fotografia meramente ilustrativa - Divulgação/ Pixabay/ ZERIG

A cultura pop já cansou de usar o inferno cristão como cenário para um lugar caótico, com lutas contra o próprio Tinhoso ou apenas representando uma ameaça constante aos personagens. Acontece que, mesmo que muitos não saibam, o conceito de inferno cristão não vem diretamente apenas do cristianismo, mas da cultura também.

No caso específico, de uma cultura do fim da Idade Média, quando Dante Alighieri escreve o famigerado livro “Divina Comédia”, que data do século XIV – na época, intitulando-o apenas de “Comédia”.

Retrato de perfil de Dante Alighieri /Wikimedia Commons / Domínio Público

 

O volume é dividido em três atos: Inferno, Purgatório e Paraíso. E a parte que mais chocou o mundo na época, por motivos óbvios, foi a primeira.

Na história, Dante adentra o lugar infernal para salvar sua amada Beatrice do próprio mochila-de-criança. E com a ajuda do poeta romano Virgílio, servindo como um tipo de guia, Dante desce os nove círculos do inferno e narra as características de cada um deles, bem como descreve algumas figuras que estão em cada um dos círculos – já aproveite o guia para tentar adivinhar em qual desses círculos você vai... Isso se por acaso você não for para um lugar melhor.


1. Limbo

Aqueles que por acaso nunca ouviram falar que Cristo existiu acabam no Limbo, o primeiro círculo do inferno. Então, elimine esse da sua lista... Já que se você nunca ouviu falar do cara, acabei de te falar sobre ele. No livro, Dante encontra nesse círculo algumas figuras conhecidas como Sócrates, Aristóteles e Júlio César, entre outros.


2. Luxúria

Esse é autoexplicativo. Gostar da coisa não tem nada errado, mas o desejo do corpo, de forma exacerbada, pode te levar ao segundo círculo do inferno. De acordo com a história medieval, Dante encontra lá Aquilles, Cleópatra, Tristão e outros notáveis.


3. Gula

Ninguém nega que comer é bom. Calma. Mas gostar demais da hora do rango pode te levar para o terceiro círculo: a Gula. “Divina Comédia” narra Dante encontrando pessoas comuns e não figuras lendárias como antes, dando a entender que é um pecado bem comum de se cometer.


4. Ganância

O quarto círculo do inferno é a ganância. Um lugar onde as pessoas que pensam demais em adquirir dinheiro ou poder e acabam ficando. Na história, Dante passa com Virgílio sem falar com ninguém, mas comenta sobre a ganância ser um pecado mais sério que os outros.


5. Ira

Dante e Virgílio encontram pessoas furiosas no quinto círculo do inferno. Permitir que a Ira se torne um sentimento dominante na sua vida pode te levar a esse lugar. Na própria obra, Dante se questiona se ele pode ir para lá quando morrer, afinal, participou das Cruzadas e definitivamente permitiu que o sentimento o dominasse algumas vezes.


6. Heresia

A rejeição das normas religiosas (ou políticas) da época poderiam te levar para o sexto círculo. E isso no mundo moderno vai levar uma galera pra lá, não é? Dante encontra figuras conhecidas como Epicuro, o imperador do Sacro Império Romano Germânico Frederico II e o Papa Anastácio II.


7. Violência

O sétimo círculo é onde começam os chamados subcírculos. Dependendo do tipo de violência que você cometeu em vida, pode parar nesse nível profundo do inferno. O primeiro subcírculo do sétimo círculo – um pouco confuso, né? – é o externo; o segundo é o do meio e o terceiro é o interno. No externo ficam as pessoas que foram violentas com outras pessoas e com propriedade. Na história, Dante encontra Átila o Huno. O subcírculo do meio é onde ficam as pessoas que cometeram violência contra elas mesmas – automutilação, suicídio etc. O subcírculo interno é o local reservado às pessoas que cometeram blasfêmia ou violência contra Deus. Na história, Dante encontra Brunetto Latini, um sodomita que foi mentor de Dante – que climão, né?


8. Fraude

Pessoal que tem CNPJ tem que prestar atenção nesse oitavo círculo do inferno. Pessoas que cometeram fraudes conscientemente, sendo sedutores, elogiadores, falso profetas, políticos corruptos – imagine Brasília lendo isso –, ladrões, hipócritas e outros. Basicamente, para você não parar nele é só não tentar enganar alguém de forma consciente. E pelo nível que estamos nesse momento do texto, deu para perceber que Deus não gosta mesmo de quem faz isso, né?


9. Traição

É muito curioso como funciona o último círculo do inferno, onde o próprio Satanás reside. Ao criar esse local no livro, Dante Alighieri acaba divulgando um pouco da sua própria visão sobre a traição. Esse círculo é dividido em quatro. O primeiro se chama Caina, referenciando Caim, que matou seu próprio irmão. É o lugar onde ficam aqueles que traíram seus próprios familiares; o segundo, Antenora, faz alusão a Antenor de Troia, que traiu os gregos na guerra.

Nesse lugar ficam aqueles que traíram governos; o terceiro se chama Ptolomea, em referência a Ptolomeu, conhecido por ter matado Simão Macabeu e seus filhos após um jantar em que eles foram convidados pelo próprio. Ficam nesse lugar aqueles que matam seus convidados; o quarto se chama Judecca, em homenagem a Judas Iscariot, que traiu Jesus Cristo. Esse é reservado pra quem trai seus mestres, senhores e bem feitores.

Centro do Inferno

Após passarem pelos nove círculos do inferno, Dante e Virgílio chegam ao Centro do Inferno e conhecem Satanás. O capeta é descrito como uma besta de três cabeças e cada boca está comendo uma pessoa específica: uma está comendo Brutus – aquele do "até tu?"; outra, Cassio, que também traiu Júlio César; na terceira está Judas Iscariot – dá pra perceber que Dante realmente odiava o cara que traiu Jesus.

A trajetória de Alighieri é tema do novo episódio do podcast “Desventuras na História”, o novo projeto do site Aventuras na História, que retrata a vida de diferentes nomes de diversos períodos que marcaram o mundo.

De Aventuras a Desventuras

Com minha narração, professor de História e idealizador do podcast “História em Meia Hora”, o conteúdo é transmitido de forma mais íntima, como se estivesse conversando com o ouvinte. O primeiro episódio do projeto relembra a saga da rainha Maria Antonieta, que foi da realeza à guilhotina.

Com tom descontraído, o podcast segue a nova maneira de levar a História para o público.

Minha expectativa principal é fazer com que as pessoas entendam que a história não precisa ser maçante, pode ser bem descontraída. E acredito que o site da Aventuras na História já tem essa pegada.