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Documentos de 1960 revelam políticas racistas da Família Real, diz jornal

Em uma extensa investigação, o The Guardian identificou textos que chegavam a proibir a presença de minorias étnicas e imigrantes em cargos de alta patente no Palácio de Buckingham

Pamela Malva Publicado em 05/06/2021, às 21h00

Elizabeth II com o marido e os filhos
Elizabeth II com o marido e os filhos - Creative Commons/ Wikimedia Commons

No dia 7 de março de 2021, o Príncipe Harry e sua esposa, Meghan Markle, geraram diversas discussões ao darem uma polêmica entrevista para Oprah Winfrey. Durante a conversa, o Casal Real fez revelações que surpreenderam todo o Reino Unido.

Quando estava falando com a apresentadora norte-americana, por exemplo, Meghan afirmou que teria escutado questionamentos racistas feitos por parte de membros do Palácio de Buckingham com relação ao seu filho. Muitos, então, começaram a duvidar.

Para os apoiadores da monarquia, parecia impossível que a Família Real realmente fosse racista. Segundo antigos documentos encontrados pelo jornal britânico The Guardian, via CNN, contudo, o próprio cerne da coroa já lidou com polêmicas raciais.

Príncipe Harry e Meghan Markle em entrevista com Oprah Winfrey / Crédito: Getty Images

 

Agora, meses depois da fatídica entrevista, o The Guardian revelou diversos documentos nacionais do Reino Unido que indicam um fato questionável ocorrido no Palácio de Buckingham até o final dos anos 1960. De acordo com os textos, os próprios cortesãos da rainha proibiram imigrantes de minorias étnicas de ocupar altos cargos no castelo.

O jornal britânico, então, revelou que, em 1968, o gerente financeiro da Família Real afirmou que “não era, de fato, a prática nomear imigrantes negros ou estrangeiros” para funções clericais, mas era comum que eles fossem empregados domésticos.

Procurado pela CNN, o Palácio de Buckingham não explicou quando a situação chegou ao fim. Em comunicado, todavia, o castelo pontuou que “afirmações baseadas em um relato de segunda mão de conversas de mais de 50 anos atrás não devem ser usadas para tirar ou inferir conclusões sobre eventos ou operações dos dias modernos”.

Fotografia da Família Real em 2016 / Crédito: Getty Images

 

Lei da Rainha

Durante sua investigação sobre os documentos, o The Guardian ainda descobriu que, décadas atrás, um curioso procedimento foi instituído no Palácio. Chamado de "consentimento da rainha", ele servia como uma forma de obter certa isenção da legislação britânica que buscava prevenir a discriminação no local de trabalho.

Dessa forma, segundo o jornal, a rainha estaria livre de julgamentos por essa lei — que também condenava a não contratação de pessoas com base em sua etnia. O problema é que a própria Rainha Elizabeth II está isenta da mesma legislação até hoje.

Ainda em comunicado, entretanto, o Palácio de Buckingham afirmou que "a Casa Real e o Soberano cumprem as disposições da Lei da Igualdade, em princípio e na prática. "Isso se reflete nas políticas, procedimentos e práticas de diversidade, inclusão e dignidade no trabalho dentro da Casa Real."

A rainha Elizabeth II e o príncipe Philip na cerimônia de coroação / Crédito: Getty Images

 

Tempos modernos

Para muitos britânicos, a parte mais intrigante da investigação é o fato de que, ao contrário das alegações feitas por Harry e Meghan, os documentos encontrados pelo jornal são provas físicas da presença da discriminação no Palácio, o que não é favorável para a monarquia — ainda mais quando se percebe que, na época, o Príncipe Charles, um dos membros da nova geração da família, já estava na linha de sucessão do trono.

Por isso, muitos jovens começaram a se questionar, segundo a CNN. Se os atuais membros da realeza realmente fecharam os olhos para políticas racistas do passado, seria realmente improvável que eles fizessem comentários racistas sobre um bebê?

Para Kehinde Andrews, professora de estudos sobre a negritude na Birmingham City University, essa resposta não é tão simples. Em entrevista à CNN, ela pontuou que "a família real tem um histórico terrível em relação à raça, mas nenhum incidente mudou radicalmente o pensamento antes, então por que mudaria agora?"