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Em prisão, Cesare Battisti faz greve de fome e reclama de condições na cadeia

Segundo defesa de Battisti, tudo tem sido feito para que a "legítima execução de uma pena não assuma os contornos de um vingativo sepultamento tardio de um indivíduo 40 anos após os fatos cometidos”

Redação Publicado em 08/09/2020, às 12h26

Cesare Battisti
Cesare Battisti - Wikimedia Commons

Em 2019, a justiça italiana confirmou que o criminoso Cesare Battisti seria sentenciado a prisão perpétua pelos crimes cometidos durante os Anos de Chumbo de seu país. Battisti ficou quase 40 anos foragido, residindo em países como França, México, Brasil, e mais recentemente — onde foi capturado — Bolívia.

Agora, ele protagonizou um novo episódio insólito durante sua prisão: greve de fome. As informações são da ANSA, via UOL. O terrorista de 65 anos afirmou que o ato é uma forma de protesto contra o isolamento diurno que está recebendo desde o ano passado. "Tendo exaurido todos os meios para fazer valerem os meus direitos, me encontro obrigado a recorrer à greve de fome total e à rejeição de tratamentos", revelou Cesare.

Segundo o advogado de Battisti, o isolamento atual duraria apenas seis meses. Além disso, o criminoso também tem feito de tudo para diminuir a pena e chegou até a pedir prisão domiciliar diante da pandemia de Covid-19. Ele também reclamou da alimentação da cadeia e atendimento médico.

"A Cesare Battisti, não é sequer permitido se surpreender se, no seu caso, algumas leis forem suspensas. É o que me foi passado, sem meios-termos, por diferentes autoridades", afirmou em carta. "Peço também que seja revista minha classificação no regime de alta segurança para terroristas, já que não existem mais as condições de risco que a justifiquem”, finaliza o presidiário.

O advogado também explicou que numa solicitação recente, foi cobrado o “mínimo de direitos humanos do detento”. Ainda na visão da defesa, tudo deve ser feito para que a "legítima execução de uma pena não assuma os contornos de um vingativo sepultamento tardio de um indivíduo 40 anos após os fatos cometidos”.

Os crimes 

Os homicídios ocorreram durante os Anni di Piombo (Anos de Chumbo) da Itália (1960-1980). Foi um período de instabilidade sócio-política, marcada por atos de terrorismo e ataques vindos tanto da extrema direita como da extrema esquerda. O primeiro sangue derramado foi o do policial Antonio Annarumma, morto por uma barra de ferro durante um protesto, em 19 de novembro de 1969. Em 12 de dezembro, o atentado a bomba na Piazza Fontana (Milão) deixou 17 mortos e 88 feridos.

Ninguém assumiu a autoria, e uma longa investigação apontou neofascistas como suspeitos, sem chegar a uma conclusão definitiva. A princípio, a polícia achava que era um "atentado de esquerda".

O anarquista Giuseppe Pinelli, morreu em 15 de dezembro, caindo da janela de uma delegacia, de sua sala de interrogação, o que a polícia afirmou ser “suicídio”. Isso enfureceu a esquerda, e o policial responsável por sua custódia, Luigi Calabresi, seria assassinado em 17 de maio de 1972, causando outra onda de retaliação da direita. 

No auge da violência, o primeiro ministro Aldo Moro foi sequestrado e, após 55 dias de cativeiro, morto pelas Brigate Rosse (Brigadas Vermelhas), em 16 de março de 1978.

No final dessas duas décadas, 428 pessoas terminaram mortas, com mais 2.000 feridas física e mentalmente. A última vítima é considerada o senador Roberto Ruffilli, morto em Forlí em 16 de abril de 1988, após o que as Brigadas Vermelhas declararam estar abandonando a violência, com uma segunda campanha entre 1999 e 2003 levando a mais quatro assassinatos.