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Genocídio no Congo: Entenda o que está acontecendo no país e os objetivos do governo central

Neste ano, mais de 200 pessoas morreram durante um conflito na província de Ituri. O presidente classifica a guerra étnica como genocídio

André Nogueira Publicado em 04/07/2019, às 08h00

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Crédito: Reprodução

Desde o dia 10 de Junho, a província congolesa do Ituri, na República Democrática do Congo, tem sofrido pressões de milicianos e grupos econômicos responsáveis pela morte de 160. O recém-eleito presidente Félix Tshisekedi declarou que vê o caso como uma tentativa de genocídio. Segundo o Programa Alimentar Mundial (PAM), a situação de Ituri já é a segunda pior crise de fome do mundo, só perdendo para o caso da guerra no Iêmen com a Arábia Saudita.

De acordo com o presidente, o genocídio ocorre “claramente [...] para inflamar Ituri” e “desestabilizar o poder em Kinshasa”. Há décadas que Ituri passa por situações caóticas, entretanto, as últimas semanas marcaram a radicalização do conflito étnico entre os hemas (criadores de grado) e os lendus (agricultores) da região.

É fato que a guerra no Congo é fruto de fronteiras impostas, resultado de acordos e guerras colonais já antigos, além de disputas de Poder. A desestabilização das fronteiras políticas do país pode, realmente, quebrar bases do poder de Estado em Kinshasa. Isso porque a Frente Nacionalista e Integracionista (FNI) e a União dos Patriotas Congoleses (UPC) não pretendem submeter suas demandas à capital.

Como resposta ao sangrento conflito, o presidente anunciou uma larga operação militar de pacificação na província. “O último caso de ressurgimento da insegurança em Ituri me afeta profundamente porque é um grande passo atrás em termos de pacificação” afirmou Tshisekedi, num discurso à Rádio Okapi.

Torna-se claro que a solução encontrada pelo Estado congolês é a submissão da província à vontade de ordem da capital, mas as mortes de cidadãos pelo conflito de terra e poder continua tendo bases fundadas.

"Um massacre em silêncio", chamou a VICE / Crédito: Reprodução

 

A situação em Ituri virou uma bola de neve: o conflito tem sido responsável por mortes e aumento do poder das milícias, responsáveis pelo genocídio, enquanto gera milhares de refugiados pela África.

O resultado disso é um aumento no preço dos alimentos do Congo e a inflação de uma bolha que pode deflagrar a deficiência econômica do país. Ao mesmo tempo, aumenta-se as pragas, os insetos e as doenças infecciosas que tomam a província. O resultado é o caos humano. A guerra não está sendo só tomada na base das armas, mas também na inanição da população pela destruição dos alimentos.

Ituri é uma região rica em minérios, e por isso Kinshasa não está desposta a perder o seu controle. Tshisekedi, em associação com o PAM, tem realizado reforços na distribuição de alimentos e, após declarar a intervenção militar, propôs um “ponto final definitivo” (em suas palavras) à situação de caos.

Pretende-se não somente impedir o genocídio, mas retomar o controle da província, suprimir os movimentos étnicos independentes, acabar com o fluxo de refugiados que cruzam a fronteira para a Uganda e destruir as bases milicianas (“malfeitores”, para Tshisekedi).