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Escândalo na Igreja Católica: Legionários de Cristo admitem que 175 casos de abuso sexual ocorreram na instituição

Investigação revela que os casos eram práticas comuns da entidade — relatório é publicado três dias após o Papa Francisco I ter ordenado a remoção do segredo pontifício sobre os pedófilos eclesiásticos

Fabio Previdelli Publicado em 23/12/2019, às 10h27

Imagem ilustrativa - Padre saindo da Igreja
Imagem ilustrativa - Padre saindo da Igreja - Getty Images

A Congregação dos Legionários de Cristo, instituição fundada em 1941, divulgou, neste sábado, 21, — três dias após o Papa Francisco I ter ordenado a remoção do segredo pontifício sobre os pedófilos eclesiásticos — um relatório sobre os casos de abusos sexuais de menores que aconteceram na entidade.

O documento chamado de ‘Radiografia de Oito Décadas para Erradicar o Abuso’ aponta que, desde a fundação da Congregação até os dias atuais, 175 menores de idade foram abusados ​​sexualmente por 33 sacerdotes — sendo 60 desses casos, ao menos, cometidos pelo padre Marcial Maciel, que morreu em 2008.

Ainda segundo o levantamento, a maioria das vítimas eram meninos com idades entre 11 e 16 anos. Além do mais, outros 90 estudantes teriam sido abusados por 54 seminaristas, sendo que 46 entre eles não foram ordenados padres.

Atualmente, a Congregação dos Legionários de Cristo, que foi fundada no México, está presente em 21 países, com 961 padres e 617 seminaristas.

Sobre os 33 sacerdotes: seis morreram, oito deixaram o sacerdócio e 18 continuam na congregação. "Desses 18, 100% estão afastados do trato pastoral com menores, quatro deles têm restrições ao ministério e um plano de segurança, e 14 não exercem o ministério sacerdotal público", aponta o relatório.

Pedido de desculpas às vítimas

Além dos casos de abuso, a ‘Radiografia de Oito Décadas para Erradicar o Abuso’ também apresenta um pedido de desculpas às vítimas da instituição:

"Lamentamos e condenamos os abusos cometidos em nossa história, bem como as práticas institucionais ou pessoais que podem ter favorecido ou encorajado qualquer forma de abuso ou revitimização", afirmou o documento. "Pedimos perdão às vítimas, suas famílias, Igreja e sociedade pelos graves danos que os membros de nossa Congregação causaram”.

"Com isto, os Legionários de Cristo desejam dar um passo à frente ao confrontar sua história para conhecer e reconhecer o fenômeno do abuso sexual de menores e favorecer a reconciliação com as vítimas”.

O relatório também intitula uma série de medidas de prevenção que os Legionários de Cristo adotam desde 2014 para impedirem novos casos de abuso.

O documento também aponta que 45 das 175 vítimas receberam algum tipo de “reparação ou reconciliação”, mas que persiste “a grande necessidade de continuar facilitando esse caminho para os demais”.

Sobre os casos

Maciel era potencialmente o pedófilo mais famoso da Igreja Católica Romana e pode até ter abusado de crianças que ele teve em segredo com pelo menos duas mulheres. O padre havia dado enormes contribuições ao Vaticano durante o papado de João Paulo II e foi elogiado durante a vida pelos conservadores da Igreja.

O falecido padre mexicano Marcial Maciel é abraçado pelo papa João Paulo II em uma cerimônia em 3 de janeiro de 1991 / Crédito: Getty Images

 

Quando o Vaticano reconheceu os crimes de Maciel pela primeira vez em 2006, o ex- Papa Bento XVI ordenou que ele se retirasse para uma vida de "oração e penitência". No entanto, o papa Bento 16 resistiu aos pedidos de dissolução dos legionários e a ordem foi assumida pelo Vaticano em 2010.

Quase 43% dos que cometeram abusos estavam em posições de autoridade, dificultando denunciá-los ou puni-los, segundo a investigação. "O abuso estava ligado ao abuso de poder e consciência por parte de alguns que se aproveitavam de seus postos para abusar", afirmou o relatório.

Ex-membros disseram que a ordem era administrada como um culto, com regras proibindo qualquer crítica ao fundador ou questionamento de seus motivos.

Condenação

Entre os 33 padres envolvidos nos casos de abuso — excluindo os seis que morreram sem serem condenados — apenas um está sendo processado e outro foi condenado. “Os outros até agora não foram processados por várias razões, como a situação legal nos vários países ou nas outras limitações”, aponta o levantamento.