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Arqueólogos encontram artefatos do povo indígena Chumash datados do século 19

Localizado na Califórnia, o sítio arqueológico abriga conchas gigantes e objetos de vidro

Joseane Pereira Publicado em 09/08/2019, às 09h00

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- Reprodução

Uma escavação liderada pela pesquisadora Kaitlin Brown, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, tem desenterrado objetos pertencentes ao povo Chumash no Parque Histórico da Missão Purisima, em Lompoc. O trabalho faz parte da disciplina "Métodos e Técnicas de Arqueologia de Campo", ministrada por Brown.

Artefato valioso

Uma das descobertas mais surpreendentes da equipe não foi criada pelas mãos humanas: é uma concha de abalone, gigantesco caramujo iridescente. O objeto foi encontrado a 1,2 metros de profundidade, no local das moradias Chumash, e era utilizado como artefato. "Foi um momento muito valioso", afirmou Jenny Altamirano, estudante de antropologia que está participando da escavação.

Abalone / Crédito: Reprodução

 

Para Brown, que está no doutorado em antropologia da Universidade, o objeto era único, pois os outros fragmentos de concha eram menores e pertenciam a mexilhões. “Foi um evento forte porque não conhecíamos as dimensões do objeto e, lentamente, conforme começamos a nos aprofundar cada vez mais na parede lateral, percebemos o quão grande era”, explicou ela. “Após retirarmos, entreguei-o ao monitor nativo, passando um objeto colocado por um residente da Missão há algumas centenas de anos nas mãos de um descendente tribal Chumash”.

Os Chumash

As moradias Chumash se dividem em duas épocas: o período espanhol (1813-1821) e o período mexicano (1821-1833). Os objetos desenterrados permitirão entender as negociações dos nativos americanos com os múltiplas dominadores estrangeiro através do tempo. "Estou interessada em saber como os Chumash que viveram aqui navegaram nessas duas políticas coloniais diferentes", disse ela.

Para os Chumash atuais, escavar a terra de seus ancestrais é um assunto delicado - por isso, um membro do grupo monitora a escavação. Gina Mosqueda-Lucas, indígena Chumash, mantém um olhar atento sobre o projeto “para garantir que os artefatos saiam do chão respeitosamente”. Ela está satisfeita com o andamento.

"Katie tem um ótimo grupo de estudantes aqui, muito respeitosos com a cultura", afirmou Mosqueda-Lucas. “Eles estão sempre fazendo perguntas sobre a linguagem, sobre esses itens que estão surgindo, as coisas que estão encontrando. Eles se interessam pelos propósitos dentro da cultura - para o que os objetos são usados. E são muito bons em fazer perguntas, não apenas extrair artefatos do chão”.

Lado principal da escavação / Crédito: Santa Bárbara

 

Para Brown, o trabalho do arqueólogo tem evoluído da simples extração de objetos do solo para um real contato com as comunidades pesquisadas, colocando-as no centro do trabalho. “Acho que a principal coisa que estou tentando ensinar com a presença da monitora, é como é importante trabalhar com a comunidade local”, disse ela. 

“Outros descendentes e jovens de Chumash vieram para a missão. Eu os coloquei em uma unidade, envolvendo-os. Isso faz parte: mostrar como a arqueologia mudou. Não se trata apenas de desenterrar o passado, mas sobre para o que estamos chamando atenção no presente”.

Escola de campo

Para Angelina Sanchez, de 34 anos, que participa do projeto, uma escavação fornece aos potenciais estudantes de arqueologia a noção real sobre o trabalho. “Faça algo assim primeiro porque, por um lado, você fica tipo 'Uau, eu realmente amo fazer isso'. E, por outro lado, você pode dizer: 'Está quente, estou coberto de sujeira, é cansativo'. Algumas pessoas podem achar isso chato. Mas você realmente vê se é o que quer seguir. É necessário um nível de paixão, interesse e compromisso para achar isto gratificante.”

Outra participante é Ely Rareshide, que trabalhou 10 anos como engenheira antes de decidir que “as pessoas são mais interessantes que os moinhos de vento” e se candidatar ao doutorado em Antropologia sociocultural da Universidade. "É muito bom não estar olhando para a tela do meu computador", afirmou ela. “É meditativo, porque é tão físico que você tem que se concentrar no momento de cavar e fazer a triagem. Você consegue essa agradável pausa mental, que eu realmente gosto”.

Após o término da escavação, Brown e seus alunos analisarão em laboratório os dados coletados. Eles apresentarão os resultados na reunião anual da Sociedade de Arqueologia da Califórnia, em 2020.