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A escrita por mulheres e para mulheres: A exclusividade do Nüshu

Originário do sudeste da China, o método de escrita é dedicado apenas a elas. Porém, ele está morrendo

Vinícius Buono Publicado em 27/08/2019, às 17h00

O Nüshu
O Nüshu - Reprodução

Na Província de Hunan, no sudeste da China, nasceu, provavelmente no século 19, uma forma de escrita um tanto quanto peculiar por uma razão específica: apenas as mulheres a entendem e escrevem.

O Nüshu, como é denominado, é diferente do mandarim tradicional. Além de ser escrito na vertical, parecendo bem mais esguio e organizado, cada ideograma representa uma sílaba, tornando a escrita mais fonética. É conhecido, também, como escrita de mosquito, pois as letras e linhas finas fazem parecer que foi feito por algum tipo de inseto.

Não se sabe ao certo quando o Nüshu apareceu, mas pesquisadores estimam que tenha sido no início do século 19. As mulheres sempre escreveram na China, ainda que de maneira limitada, mas o sistema de escrita é uma das poucas modalidades feitas por elas para elas e, inclusive, por camponesas, enquanto a escrita tradicional ficava mais reservada àquelas que pertenciam à alta sociedade.

Feito originalmente com uma espécie de caneta de bambu mergulhada em tinta sobre papel, tecido, leques ou qualquer superfície onde se pudesse escrever, o Nüshu era utilizado, majoritariamente, para a autoria de poemas, autobiografias, orações, votos de felicidade para mulheres recém-casadas, entre outros.

Variava de acordo com a fase da vida da autora, e aquelas que compartilhavam diferentes escritos entre si adquiriam uma relação de irmandade propriamente dita, mesmo sem laços de sangue.

Sobre o sexo oposto, o Nüshu não foi fruto de uma resistência, uma escrita codificada e secreta por onde as mulheres podiam falar livremente sem medo dos homens como queriam dizer os ocidentais que o descobriram na década de 1980.

Eles sempre souberam, só não tinham interesse por conta do estigma de ser coisa de mulher, tal qual bordado ou tricô. A existência da forma de escrita é, no máximo, um sintoma de que a sociedade chinesa sempre foi extremamente patriarcal, hierárquica e rachada entre os dois sexos.

Apesar da dedicação de muitas para que ele siga existindo, o Nüshu está desaparecendo. Segundo o China Daily, jornal oficial do país feito em inglês, a última mulher que de fato conhecia a escrita morreu em 2004. Por meio de museus e aulas (inclusive na Universidade Tsinghua, em Pequim, tanto para homens quanto para mulheres), há um esforço para mantê-lo vivo mas, em breve, pode virar apenas história.