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Espetáculo 'Maria Thereza e Dener' recebe convidados para debater o Golpe de 1964

Peça retrata a amizade entre a ex-primeira-dama Maria Thereza Goulart e o estilista Dener Pamplona de Abreu

Redação Publicado em 29/03/2022, às 11h55

Imagem promocional de 'Maria Thereza e Dener' (2022)
Imagem promocional de 'Maria Thereza e Dener' (2022) - Priscila Prade

No dia 31 de março, quinta-feira, elenco e direção do espetáculo Maria Thereza e Dener, que está em cartaz no Teatro Eva Herz, recebem convidados para um bate-papo sobre a data que marca o Golpe Militar de 1964.

A jornalista Mônica Dallari, a cineasta Susanna Lira, o vereador Eduardo Suplicy e o filósofo, poeta, escritor e presidente do Instituto João Goulart e presidente do PCdoB-DF João Vicente Goulart vão conversar sobre o tema O que o golpe mudou em NOSSAS vidas? com mediação do jornalista Don Ernesto. O debate acontece após a sessão do espetáculo.

O espetáculo Maria Thereza e Dener trata sobre a trajetória da célebre primeira-dama Maria Thereza Goulart, esposa do ex-presidente João Goulart (1919-1976), e sua amizade com o famoso estilista Dener Pamplona de Abreu. Dirigida por Ricardo Grasson, com idealização da atriz Angela Dippe, que divide a cena com Thiago Carreira, a adaptação teatral de José Eduardo Vendramini é livremente inspirada no livro de Wagner William, 'Uma Mulher Vestida De Silêncio - A Biografia De Maria Thereza Goulart (Editora Record, 2019). As apresentações acontecem às quartas e quintas-feiras, às 20h, até 28 de abril. 

O jornalista Wagner William conseguiu reunir relatos inéditos sobre a vida pessoal da primeira-dama a partir do acesso ao diário dela e de uma longa série de entrevistas feitas em 11 anos com a biografada e centenas de familiares, antigos funcionários, amigos e inimigos políticos. Esses fatos pessoais se misturam ao nefasto cenário político estabelecido no Brasil durante a época da Ditadura Civil-Militar (1964-1985), acompanhado por Maria Thereza durante o exílio da família no Uruguai. 

“A maneira como o Wagner conta essa história é muito leve e envolvente. O fato de ser uma biografia feminina também me chamou muita atenção. A ideia de um recorte ficcional juntando Maria Thereza e Dener me pareceu uma maneira interessante de colocar esta história no palco e falar de moda, imprensa, fofocas, amizade e saudade, tendo como fundo esse momento histórico tão dramático”, conta a atriz Angela Dippe, sobre como teve a ideia de levar a obra para o palco.

A Trama 

A bela e sincera amizade entre Maria Thereza e Dener é usada em cena como um artifício para que o público possa revisitar historicamente a política brasileira desse período turbulento e pensar em suas consequências para o país até hoje. 

A jovem esposa do presidente João Goulart precisa de um costureiro-estilista de grande nível. E ele, atrevido, logo se oferece para o cargo. Além de costureiro particular, Dener se torna conselheiro e preparador de Maria Thereza para a vida social obrigatória e digna da jovem primeira-dama mais bonita do mundo, frequentemente comparada a Jacqueline Kennedy. 

Ao longo dos anos, Maria Thereza revela grandes mudanças: de jovem despreparada para a vida política brasileira a esposa participativa e influente do presidente João Goulart, que está em vias de ser deposto e vê a renúncia como a única forma para não haver tumulto, violência, guerra civil e derramamento de sangue no país. 

“Ao colocar dois atores em cena, pretendi não só fazer alguma síntese possível daquele extenso período, como também elogiar a lealdade e a amizade entre duas figuras ímpares da história do nosso país. Ela, nossa primeira-dama mais bonita, que evoluiu da ingenuidade própria da juventude para o duro amadurecimento trazido pelo longo exílio; ele, talentosíssimo criador da moda brasileira, grande nome nacional e internacional, consumido precocemente por seu enorme brilho pessoal”, revela o autor José Eduardo Vendramini.

Ainda de acordo com o dramaturgo, a peça também trata de temas como “a amizade incondicional, a lealdade entre pessoas afins, a peculiaridade da política nacional e latino-americana na década de 1960, da qual ainda somos herdeiros”.

“Trazer aos palcos a história de Maria Thereza Goulart e Dener Pamplona de Abreu não é só narrar um lindo e marcante encontro entre a ex primeira-dama do Brasil e seu estilista, mas também, contar a profunda e verdadeira amizade que havia entre os dois. Ela, uma menina vinda do interior gaúcho e que se tornaria, mais tarde, nossa primeira-dama. Ele, um jovem cheio de sonhos e muito talento, vindo do arquipélago do Marajó, que se tornaria uma referência, responsável pela revolução no mundo da moda em nosso país. O encontro perfeito. Neste período, o então vice-presidente João Goulart assume as rédeas da nação após a renúncia de Jânio Quadros. Impossível falar de Maria Thereza e Dener sem nos depararmos com um dos períodos mais obscuros da história moderna brasileira: a ditadura militar. Maria Thereza e Dener a viveram na pele, desde a posse de Jango em 1961, até o golpe e sua deposição em março de 1964 quando Maria Thereza e toda sua família foram exilados no Uruguai. Convido a todos para embarcarem nessa história de amor e decepção, amizades e perdas, lutas e conquistas, que marcaram a trajetória, não só de Maria Thereza e Dener, mas também do nosso país”, acrescenta o diretor Ricardo Grasson.

A trajetória de Maria Thereza Goulart

Filha de imigrantes italianos, Maria Thereza Goulart nasceu em São Borja (RS) e carregou o signo da mudança em sua jornada. Antes dos 15 anos, já havia morado em quatro cidades diferentes. Durante suas férias de verão em São Borja, a adolescente recebeu uma missão: teria de entregar uma correspondência ao empresário e político João Goulart. 

Catorze anos depois daquela tarde, agora já casada com o Presidente da República e com dois filhos pequenos, a senhora Goulart enfrentaria a mudança mais atribulada não apenas de sua vida, como também de uma nação. Ela se viu obrigada a fazer uma mala às pressas e embarcar com os filhos em um avião que decolou de uma pista improvisada na Granja do Torto, em Brasília, com destino ao Uruguai. Um golpe cívico-militar derrubava o governo de seu marido. 

Começava o exílio que só terminaria, para ela, depois que a profecia de Jango, feita em abril de 1964, se cumprisse: “Vais voltar viúva e com um neto no colo”. Sem ter como se defender, ela se tornou alvo de pesadas campanhas difamatórias promovidas pelos inimigos políticos de seu marido. 

Impedida de comparecer ao velório da mãe sob a ameaça de ser presa, chorou a perda num cais à margem do rio que separa a Argentina da cidade onde nasceu. Fatos como esse não foram notícia nos jornais, enquanto mentiras sobre compras milionárias de roupas passaram a estampar as páginas dos diários brasileiros. Cansada da imagem que se via obrigada a passar quando era primeira-dama, decidiu enfrentar o assédio da imprensa até explodir num telegrama destinado ao jornal Diário Carioca. Mandou um recado claro aos colunistas sociais: “me esqueçam”.