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Mais lidas: Por que humanos pré-históricos coletavam ferramentas antigas?

Se eles podiam produzir ferramentas novas e mais aprimoradas, por que às vezes decidiam usar as de seus antepassados?

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 15/03/2022, às 15h30 - Atualizado em 20/03/2022, às 00h00

Fotografia de ferramentas de pedra analisadas pelo estudo
Fotografia de ferramentas de pedra analisadas pelo estudo - Divulgação/ Universidade de Tel Aviv

É frequente, na arqueologia, que pesquisadores encontrem ferramentas pré-históricas que foram utilizadas por humanos pertencentes a períodos temporais diferentes. O fenômeno, no entanto, nunca havia sido investigado. 

Isso até o mais recente estudo da Universidade de Tel Aviv, que foi publicado na revista Scientific Reports. Os envolvidos na pesquisa inédita analisaram 49 ferramentas de sílex encontradas no sítio arqueológico de Revadim, que fica localizado ao sul de Israel.

Os artefatos se encaixavam todos nessa categoria de terem tido dois ciclos de uso, com o mais recente deles tendo ocorrido 500 mil anos atrás, conforme informações repercutidas pelo Live Science. 

Os especialistas determinaram que essas ferramentas não foram recicladas por conta de sua funcionalidade: eram comuns em forma e não possuíam usos muito específicos, que justificariam um interesse exclusivamente funcional. 

Fotografia de uma das ferramentas analisadas pela pesquisa / Crédito: Divulgação/ Universidade de Tel Aviv

Outra descoberta curiosa é que a segunda leva de donos dos artefatos, ainda que por vezes tenham polido seus achados, em geral tomaram o cuidado de preservar a forma original dos utensílios de sílex. 

Assim, o estudo propõe que a prática de colecionar objetos que pertenceram aos seus antepassados possuía uma conotação emocional para aqueles grupos humanos que os encontravam e voltavam a usá-los. 

"Com base em nossas descobertas, propomos que os humanos pré-históricos coletavam e reciclavam ferramentas antigas porque davam significado a itens feitos por seus predecessores”, afirmou o professor Ran Barkai, um dos líderes do estudo. 

"Imagine um humano há 500 mil anos que avista uma velha ferramenta de pedra. A ferramenta significa algo para ele: ela carrega a memória de seus ancestrais ou evoca uma conexão com um determinado lugar (...) Entendendo que o uso diário pode preservar e até aprimorar a memória, ele retoca a borda para uso próprio, mas cuida para não alterar a forma geral — em homenagem ao primeiro fabricante", descreveu ainda o pesquisador, segundo o Science Daily. 

A pesquisa da Universidade de Tel Aviv sugere, assim, que a humanidade dá valor ao ato de colecionar objetos antigos desde seus primórdios.