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Estudo recente comprova que Grande Fome de 1943 em Bengala é resultado da política colonial britânica

Normalmente associada às secas da região, a fome que matou mais de 3 milhões na Índia não foi resultado de catástrofe natural. Entenda o caso!

André Nogueira Publicado em 01/04/2019, às 13h35

Fila de famintos em Calcutá
Fila de famintos em Calcutá - Getty Images

A Índia foi uma das principais colônias britânicas durante o século XX. O Subcontinente foi marcado, desde a invasão e conquista inglesa, por grandes fomes que mataram milhões de indianos. Normalmente essas mortes são associadas a secas naturais ocorridas desde o século XIX, rebatendo as acusações de que elas seriam resultado de políticas genocidas do processo colonial. Um recente estudo de solo e bioclimatologia aponta que a Grande Fome não teria ocorrido em um período de seca, mas sim em ponto de radicalização do colonialismo britânico.

O grupo de pesquisa é uma associação entre pesquisadores estadunidenses e indianos e aponta, numa análise de cruzamento entre as informações sobre o clima na época e a condição do solo do período, informações inéditas para a análise do período de fome em 1943.

Segundo os estudos da equipe, as primeiras fomes generalizadas que tiveram início no  século XIX poderiam ter iniciado por secas naturais, pois o registro climático bate com a narrativa. Porém, não é possível afirmar o mesmo para o ano de 1945, colocando em xeque a narrativa britânica em geral.  A fome deste ano resultou na morte de cerca de 3 milhões de pessoas e, segundo indícios da pesquisa, tem sua origem nas políticas britânicas durante a Segunda Guerra Mundial.

Crianças mortas por inanição nas ruas de Bengala (Wikimedia Commons)

 

Segundo o estudo, é possível apontar um período relevante de seca na região oeste da colônia no início de 1940, mas em 1945 o registro do solo aponta para uma quantidade superior ao esperado no período de precipitação, possuindo chuvas acima da média do período. Porém, este é o momento de pico da fome na região.

Ainda segundo os pesquisadores, as políticas britânicas que induziram este fome teria ligação com programas de distribuição de alimentos entre Índia e Reino Unido, em que os colonizadores priorizaram a abundância de recursos vitais aos militares em batalha contra os alemães, em detrimento da alimentação dos indianos que produziram este alimento. Aponta-se também a negligência dos britânicos ao não declarar crise de fome na colônia e encobrir as denúncias do caso.

O caso teria se agravado com a invasão japonesa à Birmânia, que era o principal produtor de arroz da região e importante responsável pela exportação do grão às regiões em crise da colônia britânica.

Bandeira da Índia Britânica (wikimedia commons)

 

Um dos pesquisadores do projeto, Vimal Mishra, aponta outro evento que possibilita compreender o fenômeno: um antigo vice-governador de Bengala, Richard Temple, seria responsável por um projeto de distribuição de alimentos e combate à fome na região, mas que teria sido repreendido pelo governo britânico de Winston Churchill durante a crise de 1943 e o projeto abandonado. Ou seja, mesmo políticas ativas de combate à tragédia teriam sido embargadas pelo governo britânico.

O resultado da pesquisa contempla o resultado de um estudo feito em 1981 por Amartya Sem, que apontava que a produção de alimentos na Índia seria suficiente em 1943 para conter a fome e as mortes do período.

Estudos mais antigos já apontavam que a fome seria resultado de políticas associadas ao governo de Churchill nos anos 1940, principalmente tratando das massivas exportações coercitivas de alimentos da Índia para a Inglaterra, somando muitas vezes mais de 80000 toneladas de grãos que saíam da colônia para alimentar as tropas britânicas durante a Segunda Guerra.

O gabinete de governo do parlamentar teria sido alertado várias vezes sobre o caso, mas os historiadores apontam negligência de Churchill em relação ao caso. O primeiro-ministro teria sido firme na posição de que o problema era irrelevante e que os esforços do governo deveram se concentrar no suprimento das demandas militares e acumulação do estoque nacional de alimentos para os britânicos. Torna-se claro que se deve somar à equação a famosa xenofobia  do líder britânico e as iniciativas de genocídio colonial comuns na ocupação de territórios estrangeiros por impérios europeus. Churchill costuma se pronunciar sobre os indianos como sub-raça inferior cujos esforços britânicos não teriam que focar na sobrevivência dessas pessoas.

Winston Churchill (Reprodução)

 

Mishra aponta que desde a independência da Índia, o país não teria passado por crises de fome de proporções continentais como ocorreu diversas vezes no período colonial. Isso seria resultado somado de políticas de distribuição dos alimentos, construção de vias hídricas visando o suporte da população, melhoria no transporte e políticas de emprego digno na zona rural. O pesquisador aponta que essas informações vão de antemão à narrativa de muitos europeus que apontam Churchill como grande defensor dos direitos humanos e guardião da liberdade entre os povos do mundo. Hoje muitos pesquisadores consideram as políticas de Churchill sobre a Índia um movimento intencional, ou pelo menos consciente, de genocídio das sociedades originárias.