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Estudo revela como a ditadura Pinochet torturava e estuprava mulheres

"Obrigaram-me a tomar drogas, sofri estupro e assédio sexual com cães, a introdução de ratos vivos pela vagina e todo o corpo. Obrigaram-me a ter relações sexuais com meu pai e irmão que estavam detidos", afirmou uma das vítimas

André Nogueira Publicado em 13/09/2019, às 12h00

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- Reprodução

O regime ditatorial chileno foi um dos mais sangrentos da América. Segundo a Comissão Nacional sobre a Prisão Política e Tortura do país, quase todas as mulheres, independentemente de idade – sofreram violência sexual na tortura: pelo menos 316 foram estupradas, 11 saíram grávidas da delegacia.

Entre as 3.399 mulheres que depuseram na Comissão, 229 esperavam filhos, muitas delas dando à luz a crianças dos torturadores, originados em estupros e humilhações.

O que se relata disso tudo é que a ditadura de Pinochet tinha como alvo a mulher, que eram tratadas como troféus de guerra. É o que defende a nova obra Así se Torturó en Chile (1973-1990), de Daniel Hopenhayn, que explana as torturas no Chile a partir da documentação.

“De acordo com os depoimentos, as violações hétero e homossexuais foram cometidas de maneira individual ou coletiva. Em alguns casos foi denunciado, além disso, que esse estupro ocorreu diante de familiares, como um recurso para obrigá-los a falar”, declara o Relatório Valech, usado por Hopenhayn.

“A violência sexual contra as mulheres foi furiosa, desequilibrada. Há cenas simplesmente inexplicáveis, que transbordam nossa imaginação sobre a condição humana”, completa o autor.

A ditadura de Pinochet foi extremamente volenta / Crédito: Reprodução

 

Um dos relatos presentes no livro é, no minímo, assustador: “Sofri choques elétricos, fui pendurada, posta no pau de arara, sofri simulação de fuzilamento, queimaduras com charutos. Obrigaram-me a tomar drogas, sofri estupro e assédio sexual com cães, a introdução de ratos vivos pela vagina e todo o corpo. Obrigaram-me a ter relações sexuais com meu pai e irmão que estavam detidos. Também a ver e escutar as torturas de meu irmão e pai. Puseram-me na churrasqueira, fizeram cortes com facão na minha barriga. Eu tinha 25 anos”.

O relatório da Comissão reúne depoimentos de 20 mulheres que sofreram abortos após as sessões de tortura, relatos de crianças afetadas por estarem no ventre das mulheres torturadas, 15 presas que tiveram os filhos na prisão e diversas mulheres que sofreram abortos espontâneos e forçados, dos fetos que se desenvolveram após os estupros policiais, além de diversos relatos de estupros forçados com cachorros e outros homens detidos, usados como ferramentas pelos torturadores.

“Eu represento a prova explícita, represento a dor mais forte que minha mamãe viveu em sua vida […] Depois que me contaram, comecei a beber, bebia todo o fim de semana, escondida. Por isso sinto que tenho muitas lacunas na minha adolescência”, disse uma moça de 29 anos, filha de uma menina de 15 anos estuprada em tortura. “Sinto que nós, crianças nascidas como eu, fomos tão prisioneiras e torturadas como as que estiveram presas.”

Venda Sexy, centro da DINA / Crédito: Reprodução

 

O livro também expõe lugares do Chile que se especializaram na tortura sexual, como o Venda Sexy e La Discotéque, um centro da DINA em Santiago. O trabalho de Hopenhayn comprova que os abusos sexuais dos torturadores chilenos eram sistemáticos e permitidos pela estrutura repressiva, e não apenas um desvio.


Você pode saber mais detalhes sobre o triste episódio no Así se Torturó en Chile (1973-1990), do jornalista Daniel Hopenhayn, 2019.