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Estudo revela que agricultura trouxe onda de violência extrema ao Deserto do Atacama

A pesquisa analisou 194 restos mortais da região

Luíza Feniar Migliosi sob supervisão de Penélope Coelho Publicado em 08/09/2021, às 12h18

Restos mortais do rosto de uma mulher mutilada
Restos mortais do rosto de uma mulher mutilada - Divulgação/ Estudo/ Standen V.G. em Journal of Anthropological Archaeology

Restos antigos esqueléticos e mumificados no Deserto do Atacama, no Chile, mostram evidências de uma onda de violência extrema ligada ao surgimento da agricultura, segundo um novo estudo. As informações são do portal Live Science.

Os pesquisadores analisaram restos mortais de 194 pessoas que viveram entre 1000a.C. e 600d.C. no deserto. Embora a violência fosse mais prevalecente no início da transição para a agricultura, a prática persistiu mesmo depois que vilas agrícolas já existiam por centenas de anos. Além disso, a violência atingiu igualmente homens e mulheres.

Entre os exemplos, uma mulher aparenta ter sido torturada, já que a pele de seu rosto estava tão esticada que sua boca era repuxada, acima de sua posição natural. Os pesquisadores escreveram que, provavelmente, foi um "ato intencional, ocorrido no momento da morte quando a pele ainda estava fresca e causando profunda agonia".

É provável que a agricultura, por meio de assentamentos permanentes, picos populacionais, reivindicações territoriais, novos problemas de saúde e desigualdade social, mudou completamente a forma como as comunidades interagiam entre si, desencadeando "tensões sociais, conflitos e violência", definiram na publicação.

Restos mortais do Deserto do Atacama | Crédito: Standen V.G. em Journal of Anthropological Archaeology

 

Dos 194 restos mortais adultos estudados, 21% (40 indivíduos) apresentavam traumas provavelmente decorrentes de violência. Dos homens, 26% (27 de 105) tiveram trauma em comparação com 15% (13 de 89) das mulheres, uma diferença que não é estatisticamente significativa, o que significa que homens e mulheres tinham a mesma probabilidade de sofrer lesões traumáticas.

A maioria (51%) dos feridos teve traumatismo craniano, enquanto 34% tiveram lesões apenas no corpo e 15% tiveram traumatismo craniano e corporal. Os homens eram significativamente mais propensos a ter traumas na cabeça do que as mulheres, descobriram os pesquisadores.

A violência no Atacama existia antes da agricultura, mas, talvez, essas agressões entre os agricultores tenham sido resultado da "forte competição entre grupos locais para garantir e manter o acesso a novas terras produtivas e água de nascente para irrigação", escreveram os pesquisadores no estudo.

Restos mortais do Deserto do Atacama | Crédito: Standen V.G. em Journal of Anthropological Archaeology

 

Apesar disso, a violência diminuiu com o passar do tempo. A equipe descobriu que o período inicial teve o dobro da frequência de trauma do que o período posterior. "Surgimento de práticas sociais que regulam os conflitos" vinculados aos direitos de propriedade tenha ajudado a conter a violência, afirmaram. As tendências climáticas e as posições de liderança também podem ter interferido, de acordo com a pesquisa.

Confira aqui o estudo completo do Journal of Anthropological Archaeology.