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"Eu enxergo o risco de uma virada política para uma ditadura”, diz Dom Odilo Scherer

Em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, arcebispo de São Paulo falou sobre a ascensão de grupos radicalistas e o envolvimento religioso na política

Fabio Previdelli Publicado em 13/04/2021, às 11h17

Dom Odilo Scherer durante entrevista ao Roda Viva
Dom Odilo Scherer durante entrevista ao Roda Viva - Divulgação/ TV Cultura

Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, na noite de ontem, 12, o arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, disse que enxerga o “risco de ditadura”, no Brasil, por conta do crescente radicalismo que é fomentado por grupos extremistas.  

"Eu enxergo o risco de uma virada política para uma ditadura. Ou então para uma tendência a um certo fascismo que vai se afirmando sempre mais. Esse é o risco concreto que vejo. Elas levam nessa mesma direção: vão ajudando a criar, digamos assim, confirmar certas tendências à polarização e fanatismos", declarou o religioso. 

Na Entrevista, Dom Odilo relembra que já foi acusado de ser um comunista infiltrado na Igreja Católica. Como em 2016, quando uma mulher o atacou durante uma missa na Catedral da Sé, no Centro de São Paulo. 

Gritando: “Você e a CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil] são comunistas infiltrados; não podem fazer isso com minha Igreja”; uma mulher foi para cima dele, arrancou sua mitra, o jogou no chão e arranhou seu rosto, como recorda matéria do UOL. O arcebispo, então, se levantou com a ajuda de outras pessoas e continuou abençoando as pessoas que estavam na catedral.  

"Os radicalismos não nascem de um momento para outro e sem motivos. Existem ideólogos de certas ideias radicais, fanatismos irracionais que acabam entusiasmando gente. Estas ideias muitas vezes são misturadas com certo ar religioso, pretensão religiosa. Ao longo da história sabemos que as ideias movem os canhões. Então, se tem pregador fazendo seguidores fanatizados, depois estoura em conflitos sociais", comentou ao falar sobre o caso.  

Além disso, na entrevista ao Roda Viva, o religioso fez uma reflexão sobre o envolvimento de grupos religiosos na política, questionando se isso não seria um ponto prejudicial para o futuro da democracia no país.  

"O percentual de evangélicos no Parlamento ou nas representações políticas é proporcionalmente muito maior do que a quantidade de evangélicos na população. A que se deve isso? Se deve ao fato de haver uma ação política das igrejas evangélicas, isso está muito claro. Igrejas que fazem candidatos bispos, pastores, líderes de igrejas, que se propõem para cargos políticos", disse Dom Odilo

"Esses são métodos que nós, na igreja Católica, não adotamos e conscientemente, por isso, pode parecer que perdemos espaço político. Talvez perdemos. Agora eu pergunto se de fato este é o modo sadio das igrejas e religiões estarem atuando na vida social. A religião atuando diretamente na política será que é a melhor forma? Será que isso não é um caminho perigoso para o futuro da democracia?", questionou.