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Os dois finais da Segunda Guerra

Com a rendição do Japão, há 73 anos, pela segunda vez no mesmo ano, a euforia tomava as ruas - mas seria um longo e doloroso caminho aos sobreviventes

terça 14 agosto, 2018
Em Nova York, americanos celebram rendição do Japão
Em Nova York, americanos celebram rendição do Japão Foto:Wikimedia Commons

Após o nazismo ser derrotado, ainda havia um árduo caminho até o fim da guerra – e outro mais ainda até a reconstrução. Eram 5 horas, mas a tarde estava longe de acabar. Naquela época do ano, no Piemonte, o sol se põe lá pelas nove. De seu jipe, quatro soldados brasileiros patrulhavam a zona rural. A tropa parou diante de uma ponte sobre um riacho, que ia dar num vilarejo. Estavam perto da cidade de Susa, o ponto mais ao norte alcançado pela Força Expedicionária Brasileira. “Já estávamos numa situação que dava para ver os Alpes Suíços, de tão ao norte”, diz o veterano José Maria da Silva Nicodemos, em depoimento à AH.

Um mensageiro topou com os soldados fazendo a revista das casas. A expectativa, àquela altura, era imensa. A guerra podia acabar a qualquer momento. Mas a tropa continuou seu trabalho, revirando cômodos atrás de alemães ou fascistas italianos escondidos. Só então ouviram o que havia a ser dito: “Acabaram as hostilidades”. 

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“Foi o momento de uma emoção que eu não tenho palavras para descrever”, afirma José Maria. Numa cena que sem dúvida deve ter deixado os italianos apavorados, os soldados pegaram seus fuzis, apontaram contra a água do riacho e dispararam até esgotar toda a sua munição. Depois foram as granadas. 

Nesse gesto, eles se livraram do peso que carregaram por quase um ano, de ser um combatente na pior guerra da história.

Rendição adiada

Era 2 de maio de 1945 e a guerra ainda não havia acabado oficialmente. A notícia que os brasileiros receberam se referia à rendição das forças alemãs na Itália, assinada no dia 29 de abril. 

Não que houvesse qualquer esperança para o Eixo. No mesmo dia 2, as tropas soviéticas plantavam sua bandeira no Reichstag, concluindo sua conquista de Berlim. Mussolini havia sido fuzilado quatro dias antes por partisans italianos, em Giulino di Mezzegra, a 250 quilômetros dali. Seu corpo e o da amante, Clara Petacci, foram levados a Milão e expostos ao público, pendurados com ganchos de açougue num posto de gasolina. Hitler não esperou a coisa chegar a esse ponto. Na tarde do dia 30, em seu bunker, ele mordeu uma cápsula de cianureto ao mesmo tempo que disparava com uma pistola contra as têmporas. 

Festa pelo fim da Guerra Mundial, no centro de São Paulo Reprodução

A notícia veio pelos próprios alemães. No dia 1º de maio, o almirante Karl Dönitz, nomeado sucessor de Hitler em seu testamento, comunicou a morte do Füher pela rádio Reichssender Hamburg. Dönitz não tinha dúvidas que fora nomeado para perder. Mas tentou atrasar a rendição o máximo possível, tentando conseguir que o maior número de alemães se rendesse aos aliados ocidentais, não aos soviéticos – o que era quase uma sentença de morte. A União Soviética havia conquistado uma fama aterradora pelas pilhagens, estupros e assassinatos em seu caminho para Berlim. Para os militares, não era melhor. Segundo o historiador britânico Richard Overy, 356.000 dos 2.880.000 prisioneiros de guerra alemães morreriam nos campos soviéticos. Assim, Dönitz arrastou a discussão por uma semana, sob a crescente ameaça de que os norte-americanos e britânicos desistiriam e deixariam a conversa para os russos. A rendição acabou assinada na madrugada do dia 7. 

Primeiro fim: A festa do século

A comemoração começou em Londres. “As pessoas aguardavam com crescente impaciência por uma palavra oficial de Churchill”, escreveu o falecido historiador John Toland, em The Last 100 Days: The Tumultuous and Controversial Story of the Final Days of World War II in Europe. “Alguns minutos depois das 6 da manhã, três [bombardeiros] Lancaster voaram baixo sobre a cidade, soltando sinalizadores vermelhos e verdes, e bandeiras dos países aliados começaram a aparecer nas lojas, enquanto milhares tomavam as ruas.

”Quando o anúncio chegou, duas horas depois, começava o que certamente foi a maior festa do século. Em Londres, marinheiros norte-americanos e moças locais dançavam a conga. Em Nova York, uma nevasca de papel picado caiu dos prédios, enquanto 500 mil pessoas tomavam as ruas. Em Paris, os franceses carregavam bandeiras americanas por debaixo do Arco do Triunfo. No Rio, houve desfile de escolas de samba com a multidão cantando God Bless America. 

Moscou teve de esperar até o dia 9, porque os soviéticos exigiram a assinatura de um segundo acordo de paz com eles. Como nunca antes ou depois na história soviética, a embaixada americana foi cercada para receber declarações de amizade e gratidão. A festa começou de madrugada e foi até o dia seguinte. 

O navegador aéreo Nikolai Kryuchkov, que ganhou uma dispensa de três dias para comemorar, escreveu em suas memórias: “Tive sorte de comprar um litro de vodca na estação do trem quando cheguei, porque era impossível encontrar uma gota depois. Celebramos o Dia da Vitória com nossas famílias, senhorios e vizinhos. Bebemos à vitória e aos mortos, desejando nunca ver um massacre como aquele novamente. Não havia vodca em Moscou no dia 10, bebemos tudo.”. A guerra na Europa havia acabado num gemido. O teatro do Pacífico seria em estrondo, tão grande que seu eco é ouvido até os dias de hoje. 

Nada o que comemorar

A maioria dos soldados americanos não tinha muito o que celebrar. “Enquanto soldados, marinheiros e pilotos em Londres e Nova York estavam dançando nas ruas e roubando beijos de moças bonitas, para os homens nas linhas de frente a reação foi bem mais discreta”, afirma o jornalista e historiador militar americano Gerald Swick, que relembra a carta do Tenente Wiliam Lee Preston, da 65ª Divisão de Infantaria do Terceiro Exército: “As tropas da linha de frente não celebraram. A maioria dos homens que meramente leu a história da vitória do boletim da divisão mandado para eles, disse algo como ‘estou contente’ e saiu fora”. Do outro lado do mundo, a notícia tinha um gosto ainda mais insosso. Não era exatamente fácil entrar em clima de festa com japoneses saltando sobre eles no meio da noite, brandindo espadas e gritando “banzai”. Os soldados no Pacífico “receberam a notícia com gratidão, mas houve pouquíssima celebração”, afirma Swick. 

Em Okinawa, o combate contra os japoneses estava em sua fase mais brutal. No dia seguinte à vitória na Europa, enquanto os russos celebravam em Moscou e a festa prosseguia em Paris, dois porta-aviões britânicos foram atingidos por ataques kamikaze. No dia 11, o também porta-aviões americano USS Bunker Hill teve seu depósito de combustível incendiado, perdendo 346 marinheiros e pilotos, e quase indo a fundo.

Membro das forças armadas dos EUA cuida de ferido, em Okinawa Wikimedia Commons

Mais de 12,500 americanos, em terra, mar e ar, pereceriam em Okinawa. A batalha foi tão brutal que é apontada como uma das razões para a triste conclusão da guerra. “Nem foram precisos os kamikazes para provar que os japoneses lutariam até o último homem”, afirma o  historiador William Gordon, da Universidade Wesleyan (EUA). “Os ataques só tornaram os americanos mais determinados a lutar até a vitória.” Os ataques kamikaze pareciam sinalizar para uma psique alienígena, que só poderia ser quebrada com medidas extremas. “Eles mal podiam acreditar em como os pilotos japoneses se matavam contra eles. Isso deu aos americanos a crença que os japoneses não se renderiam até o último tombar. O que foi a desculpa para as bombas atômicas”, afirma a historiadora americana Emiko Ohnuki-Tierney.

Em 26 de julho, os aliados apresentaram seus termos aos japoneses, na Declaração de Potsdam. O Japão deveria se render incondicionalmente ou enfrentar a “pronta e completa destruição”. Os japoneses pensaram que era o anúncio da invasão. Não estava clara a gravidade dessa ameaça. Em 6 de agosto e, novamente, três dias depois, ficou claro – dez vezes mais claro que a luz do sol, a conto de fazer a pele derreter e se soltar – o que havia nessas palavras. Hiroshima e Nagasaki se tornaram alvos da maior ação de terror da história. 

Terror mesmo – o ataque atômico foi apenas o ápice do “bombardeio estratégico”. Em terminologia militar, bombardeio tático quer dizer atacar um alvo militar, com a função óbvia e milenar de destruir armas e soldados. Bombardeio estratégico é atacar cidades para destruir não só a infraestrutura, como o moral da nação inimiga, na esperança de provocar a rendição – essa é a estratégia. 

O termo “bombardeio de terror” – Terrorangriffe – foi criado pelo ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, para se referir aos bombardeios estratégicos aliados. Não que a Alemanha não fizesse o mesmo, desde a Batalha da Grã Bretanha, em 1940, até o fim da guerra, com os foguetes V2.  Mas, conforme os aliados venciam, sua supremacia aérea se tornava indisputada. Por isso, os “mocinhos” se tornaram os indiscutíveis campeões em massacre de civis. Mais de um milhão de civis dos países do Eixo foram eliminados por bombardeio estratégico na Segunda Guerra. 

Limpando a casa

O terror funcionou. Em 15 de agosto, pela primeira vez na História, os japoneses ouviram a voz de seu inalcançável imperador pelo rádio. Hirohito admitia que “o inimigo começou a empregar uma nova e extremamente cruel bomba, com um poder destrutivo que é, de fato, incalculável”. O imperador então decidia “aceitar o inaceitável e suportar o insuportável”, aceitando os termos da Declaração de Potsdam. 

Por diferenças de fuso horário, ainda era dia 14 nos Estados Unidos. As multidões foram às ruas novamente – bem mais efusivamente do que em maio, no caso dos Estados Unidos, assim como na China, Coreia e Austrália, inimigos mais afetados pelo Japão. Nesse dia, foi tirada a célebre foto que ilustra a imagem abaixo, batida pelo fotógrafo Alfred Eisenstaedt  na Times Square, de Nova York. É certo que isso vai estragar algo de seu apelo, mas a história real não é exatamente romântica. O marinheiro George Mendonça comemorava com a namorada, Rita – que é visível ao fundo, sorridente (ao menos ainda). Completamente bêbado, George pulou sobre a enfermeira Greta Friedman para beijá-la. “De repente, eu fui agarrada pelo marinheiro. Não era exatamente um beijo”, afirmou Greta em 2005, numa entrevista para o Veterans History Project. “Senti que ele era muito forte. Estava me segurando firme. Não tenho certeza sobre o beijo... era só alguém celebrando. Não era um evento romântico.” 

Beijo na Times Square: imagem não condiz com a realidade Wikimedia Commons

Quanto ao Brasil, como no resto do mundo, a festa não rendeu grandes fotos. Por aqui, a celebração era para os pracinhas voltando, com o primeiro navio chegando ao Rio de Janeiro em 18 de julho, o último aportando em outubro. “Nas primeiras etapas foi um festerê enorme, que gradativamente foi diminuindo”, afirma o historiador René Gertz, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul. “Quando o último grupo chegou, não tinha mais nada praticamente.” 

Quando os veteranos aportaram, nem existia mais FEB (Força Expedicionária Brasileira). A força havia sido dissolvida em 6 de junho de 1945, enquanto os soldados ainda estavam na Itália. Getúlio Vargas havia recebido dos Estados Unidos a proposta de manter uma força de pacificação na Áustria, mas recusou. Ele temia que um grande contingente militar, cheio de oficiais de ideias liberais absorvidas de seus colegas americanos, significaria o fim de seu poder. A precaução não surtiu efeito. 

Quando o país entrou em guerra a favor dos aliados, a contradição entre lutar contra o fascismo no exterior tendo um regime autoritário quase idêntico no poder se mostrou cada vez mais gritante. Vargas, talvez o político mais hábil que o país já teve, tentou se equilibrar. “Quando surgiram pedidos para o abrandamento do regime, Getúlio respondeu que ‘não, espera aí. Primeiro temos que fazer o esforço de guerra’”, afirma René Gertz. “Quando a guerra termina, não tem mais esse argumento.”

Soldados da FEB são saudados em Massarosa, na Itália, em 1944 Wikimedia Commons

Gertz também aponta outra causa para a queda de Vargas no ano da vitória. “Na convenção de Yalta, Stalin pede que o Ocidente pare de maltratar os comunistas.” A Convenção de Yalta, decidiu o futuro do mundo inteiro para o resto do século. O Brasil recebeu o memorando e, em abril de 1945, os comunistas deixaram as prisões. “Quando Getúlio se vê obrigado a soltar os comunistas, não tem mais a razão de dizer que os militantes que ficam a direita dos comunistas não possam militar também. Com isso ele é obrigado a iniciar a redemocratização”, afirma Gertz.  

Vargas tentou evitar que a panela de pressão explodisse. Marcou as eleições para uma assembleia nacional constituinte e um novo presidente para 2 de dezembro. Mesmo sem se candidatar, ganhou o apoio da torcida dos “queremistas” – os que queriam que ele se mantivesse no poder durante a nova constituinte e a redemocratização. Um apoio que, em retrospecto, foi de valor duvidoso. Como sua resposta ao queremismo não pareceu firme o suficiente para a oposição, acabou apeado do poder por seu ministro da Guerra, o general Eurico Gaspar Dutra, em 29 de outubro. As eleições ocorreram no dia previsto, Dutra foi eleito e o Brasil voltaria a ser uma democracia. Como se sabe bem, seria apenas o fim de um ato, não a conclusão da grande ópera da vida de Getúlio Vargas – essa viria nove anos depois, com um tiro no coração no Palácio do Catete.

O pior ano da História

A guerra havia terminado, mas não suas vítimas. “Na maioria da Europa, não havia escolas, meios de transporte, livrarias ou lojas – não havia nada o que comprar ou vender – e quase nada era manufaturado”, afirma Victor Sebestyen, autor de 1946: The Making of the Modern World. “Não havia bancos, mas isso não importava, porque o dinheiro não tinha valor. Não havia lei e ordem: homens e crianças andavam pelas ruas com armas, tentando proteger o que possuíam ou ameaçando posses dos outros. Mulheres de todas as idades e origem se prostituíam por comida e proteção.” Por volta de 100 mil bebês nasceram de mulheres solteiras alemãs em 1946 – três vezes mais que no ano anterior. “De todas as crianças nascidas em Berlim entre janeiro e abril de 1946, estima-se que uma em seis tinha um pai russo. O número abortado era bem maior – de acordo com a opinião médica, entre cinco e oito vezes maior”, afirma Sebastyen.

Devastação no pós-guerra Wikimedia Commons

No inverno de 1945 para 1946, a fome atingia principalmente a área de domínio britânico – os ingleses continuavam a sofrer pesadamente com racionamentos em casa. Os americanos, em melhor situação, exigiam dos alemães que vissem filmes de propaganda antes de entregar o pão. A União Soviética, que basicamente tinha feito uma guerra de aniquilação contra os alemães, passava fome ao mesmo tempo em que tentava evitar que isso acontecesse com suas áreas de ocupação. Em 1946, na União Soviética ”entre 1,5 e 2 milhões de pessoas morreram de fome”, de acordo com Victor Sebastyen. “E a fome era exacerbada pela ideologia: os soviéticos mandavam grandes quantidades de alimentos para a Alemanha Oriental e outras partes de seu novo império numa tentativa de aumentar a popularidade dos partidos comunistas locais.”

O Japão não foi dividido, mas sofreu a inusitada experiência de se inventar uma democracia onde nunca tinha havido, mantendo o mesmo líder no poder – algo que deixou aos próprios japoneses perplexos. Em 1947, a terra dos samurais assinou uma constituição que a proíbe de fazer guerra – o único país do mundo com uma lei assim. Na Europa Oriental, nos anos seguintes, países conservadores, como Polônia, Hungria e Checoslováquia, liberadas pelos soviéticos, se tonariam os novos luminares da revolução comunista. A Alemanha também, ainda apenas metade dela, com Berlim também dividida em duas partes. Lá, a “cortina de ferro” teve um sentido quase literal, a partir da construção do Muro de Berlim, em 1961.

Em tese, esses países estavam livres para decidir seus destinos, não importasse o liberador. As revoluções pareciam um trabalho interno, de comunistas locais. Na prática, seu destino já havia sido traçado na Conferência de Yalta, quando os aliados aceitaram que fizessem parte da esfera de influência soviética. 

À sua imagem e semelhança, os aliados redesenharam os países conquistados. O convívio pacífico entre dois mundos opostos não iria longe – já em 1946 a diplomacia entre os ex-aliados começou a endurecer. Ambos os lados só não tentaram desenhar o mundo outra vez porque a maior invenção militar da guerra, a bomba atômica, tornava alto demais o custo de arriscar. Da festa em Moscou, Nova York, Londres e Rio de Janeiro, e do insuportável clarão em Hiroshima, nascia a Guerra Fria. E, com ela, o resto do século 20.

Fábio Marton


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