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Formigas socializam vomitando na boca umas das outras

Estudo recente demonstra até onde vão as complexidades presentes no ato

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 01/12/2021, às 15h25

Fotografia mostrando formigas durante ato de troca de fluidos regurgitados
Fotografia mostrando formigas durante ato de troca de fluidos regurgitados - Divulgação/Kalesh Sadasivan

Tal como acontece com a espécie humana, formigas são animais sociais. Por esse motivo, elas possuem sistemas de comunicação que permitem o compartilhamento de informação de um indivíduo para o próximo. 

O método pelo qual esse processo ocorre, no entanto, é um tanto inusual pela nossa perspectiva. Isso pois as formigas regurgitam fluidos nutritivos e os despejam nas bocas de outras formigas para alcançar esse objetivo. O ato, inclusive, que é chamado de "trofalaxia", não é incomum dentre insetos, que muitas vezes o usam para alimentar uns aos outros. 

"Para os insetos sociais, porém, o estômago se tornou uma espécie de 'estômago social'", apontou Adria LaBoeuf, pesquisadora envolvida no estudo que é líder do Laboratório de Fluidos Sociais da Universidade de Friburgo, instituição localizada na Suíça. 

A especialista participou de uma pesquisa de 2016 que analisou os recorrentes eventos de trofalaxia realizados pelas chamadas formigas carpinteira (podem ocorrer até 20 deles a cada minuto, de acordo com informações do LiveScience). 

Ela e sua equipe chegou então à conclusão de que esse espécime usava a troca de conteúdos estomacais para distribuir "hormônios, pistas de reconhecimento de companheiros de ninho, pequenos RNAs e todos os tipos de outras coisas", revelando o quão complexo seria o processo. 

Desdobramentos recentes

Já no início do último mês de novembro, Adria e seu time aprofundaram o conhecimento obtido anteriormente ao analisarem a composição dos nutrientes no estômago social de cada animal. 

Foi assim que os especialistas chegaram à conclusão que as trocas realizada entre as formigas eram personalizadas de acordo com a função que cada uma exercia na colônia. Assim, o papel de cada membro do formigueiro pode inclusive ser inferido através do conteúdo de seu estômago.

Essa operação, que é similar à observada nos sistemas circulatórios de organismos únicos, faria com que cada colônia pudesse ser vista não como um simples "conjunto de formigas", mas como um "superorganismo", devido à maneira como cada indivíduo se tornaria interligado pela circulação de proteínas regurgitadas. 

Os resultados foram descritos em um artigo publicado na revista científica eLife.

Nós sabemos agora que as coisas são produzidas em certos indivíduos e acabam em outros indivíduos, o que é muito emocionante. Frequentemente, adultos em colônias de formigas nem precisam comer. Em vez disso, eles quebram lentamente essas proteínas armazenadoras de nutrientes", explicou LaBoeuf em uma entrevista ao LiveScience. 

O próximo passo da pesquisa será entender por que exatamente que as formigas que desempenham cada uma das três funções principais do formigueiro (buscar folhas, cavar túneis e cuidar das larvas) possuem proteínas diferentes dentro de si.