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Governo indiano está tentando abafar mortes em protestos na Caxemira, denunciam testemunhas

Sem gerar atestado de óbito, o governo tem manipulado a situação para não gerar estatísticas negativas, mesmo impondo um bloqueio militar na área disputada pelo Paquistão

André Nogueira Publicado em 27/08/2019, às 12h00 - Atualizado às 13h00

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- Reprodução

Famílias na Caxemira estão denunciando ações do governo para abafar a morte de civis durante o conflito entre Índia e Paquistão, que se intensificou esse mês por decisão do governo indiano após dar fim ao status especial de autonomia da região, com um bloqueio militar. Segundo essas pessoas, as baixas não estão sendo contabilizadas oficialmente como forma de mentir nas estatísticas.

O governo vem tratando os protestos contra a decisão de Narendra Modi com violência, enquanto o chefe da polícia, Dilbagh Singh, gaba-se por uma teórica inexistência de baixas por causa da repressão. Porém, testemunhas oculares contrapõem esta afirmação.

Há relatos de médicos que dizem ter sido orientados para manter admissões relacionadas aos protestos no mínimo e demandar pouco tempo com esses casos. Não estão sendo expedidos os atestados de óbito, para não gerar números oficiais.

Muçulmanos da Caxemira queimam bandera indiana e imagem de Modi / Crédito: Reprodução

 

Mesmo os casos de mortes pela repressão do Estado – relatadas ao menos três neste mês, por parte dos denunciantes – foram tratadas como problemas comuns de saúde, como parada respiratória. Porém, indícios de infecção de gases tóxicos causadas pelas bombas de efeito moral da polícia são significativos.

"Eles mentiram, eles se esquivaram de mim. Quando consegui o certificado, não mencionou a verdadeira causa da morte. Eu não sou capaz de registrar a causa real da morte da minha esposa”, disse Rafiq Shagoo, de 42 anos.

A violência policial no norte do país está atingindo níveis absurdos, relatam testemunhas. Desde o dia 17 de agosto, manifestantes e policiais estão em combate em Yaripora (Srinagar), onde passeatas são contidas e dispersadas, e policiais atiram pedras nas casas da região.

Quando perguntados sobre o último número de feridos e mortes do governo indiano na Caxemira desde 5 de agosto, as autoridades em Delhi não se prontificaram a comentar. Autoridades de Srinagar declaram não poder "dar dados exatos de tais vítimas", apesar das denúncias que chegam a grandes veículos, como o The Independent, que os pressionam a agir.

Rafiq Shagoo colabora com as denúncias contra os abusos do Estado / Crédito: Reprodução

 

Os últimos 20 dias de luta na Caxemira estão bastante obnubilados pela falta de transparência do governo indiano, o mesmo que afirmou que, depois dessa confusão, a região estaria “voltando ao normal”.

Com a comunicação e as estradas bloqueadas, a região passará ainda um tempo com problemas de violência e conturbação social, mas o esforço de denúncia da população em relação aos crimes do governo poderá elucidar ao mundo a situação em que está uma das regiões mais disputadas da Ásia.