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Governo pagou por anúncios que foram veiculados em canais de “conteúdo inadequado”, indica CPMI

Os meios apresentam conteúdos de pornografia, jogos de azar, notícias falsas e, ainda, de promoção à imagem do presidente

Isabela Barreiros Publicado em 04/06/2020, às 14h07

Imagem ilustrativa de fake news
Imagem ilustrativa de fake news - Divulgação

Consultores legislativos da Câmara dos Deputados realizaram um levantamento a partir de uma solicitação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News. Eles receberam informações de anúncios contratados pelo governo através do programa Google Adsense de 6 de junho a 13 de julho de 2019.

Eles afirmaram que "ainda que abrangendo período relativamente curto, os dados fornecidos pela Secom permitem construir um rico panorama acerca das impressões de peças publicitárias do governo federal em canais de internet".

Foram investigados 65.533 canais de internet, que receberam por volta de 47 milhões de anúncios do governo. Segundo o relatório dos consultores, "um grande número de canais que veicularam publicidade do Governo Federal é composto por meios de baixa qualidade, que se dedicam a difundir notícias sobre jogos de azar ilegais, a desrespeitar os direitos de autor ou de transmissão, a veicular notícias falsas, a anunciar investimentos ilegais ou a difundir conteúdo pornográfico, entre outros”.

O levantamento inferiu que os anúncios do Governo Federal estavam sendo passados em mais de 2 milhões de canais com “conteúdo inadequado”, como classificaram. Essa quantidade se refere a 4,37% de todas as propagandas.

A maioria dos meios que receberam anúncios era de sites, aplicativos de celular e canais no Youtube. O maior número de propagandas foi para canais que divulgavam jogos de azar ilegais, em um total de 657.905 anúncios, seguido de notícias falsas, com 653.378.

Um dos exemplos usados no relatório foi o de um site que veiculava "múmias alienígenas escondidas em pirâmides do Egito, colisores de átomos que abrem portais para o inferno e baleias encontradas em fazendas a centenas de quilômetros do litoral" e recebeu 66 mil anúncios.

Além disso, os consultores perceberam que muitos eram "canais dedicados a promover a imagem do Presidente da República".

A conclusão foi a de que “foi possível comprovar a existência de inserção de publicidade em sites de notícias falsas, incluindo diversos que já vêm sendo monitorados pela CPMI”. E que o uso do programa resultou em "incorreções na condução da política de publicidade oficial da Presidência da República".


Atualização

Em comunicado, o Google se posicionou sobre o episódio ocorrido. 

“O Google tem ajudado parceiros do setor privado e do setor público a usar a publicidade digital para levar suas mensagens a milhões de brasileiros de modo eficiente, com escala e alcance.

Temos políticas contra conteúdo enganoso em nossas plataformas e trabalhamos para destacar conteúdo de fontes confiáveis. Agimos rapidamente quando identificamos ou recebemos denúncia de que um site ou vídeo viola nossas políticas.

Entendemos que os anunciantes podem não desejar seus anúncios atrelados a determinados conteúdos, mesmo quando eles não violam nossas políticas, e nossas plataformas oferecem controles robustos que permitem o bloqueio de categorias de assuntos e sites específicos, além de gerarem relatórios em tempo real sobre onde os anúncios foram exibidos.

Cientes do dinamismo do ecossistema digital, também trabalhamos no aperfeiçoamento de nossas plataformas para oferecer os melhores resultados possíveis para nossos parceiros. Preservar a confiança no ambiente de publicidade digital é uma prioridade.

Agimos diariamente para minimizar conteúdos que violam nossas políticas e impedir a ação de pessoas mal-intencionadas em nossa rede. Somente em 2019, conforme nosso mais recente relatório de transparência, encerramos mais de 1,2 milhão de contas de publishers e retiramos anúncios de mais de 21 milhões de páginas, que faziam parte de nossa rede, por violação de políticas."