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Grupos indígenas inimigos se unem contra planos de Bolsonaro na Amazônia

Ameaças vindas do garimpo, agronegócio e perda de terras unem etnias que sempre estiveram em guerra

Joseane Pereira Publicado em 10/09/2019, às 15h00

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Numa aldeia à beira do rio Iriri, no sul do Pará, grupos de indígenas se reuniram para conversar. Anos atrás, essa cena não seria possível: os Kayapó e Panará, duas das etnias presentes, têm um histórico de conflitos, guerras e inimizade. Mas eles e outros resolveram se unir para enfrentar um inimigo maior: as políticas de atuação do governo Bolsonaro na Amazônia.

Reunião inevitável

Na primeira semana de setembro de 2019, a BBC News Brasil acompanhou a reunião entre os grupos indígenas. Realizado na aldeia Kubenkokre, da Terra Indígena Menkragnoti pertencente aos Kayapós, o evento reuniu representantes de 14 etnias e de quatro reservas ribeirinhas da bacia do Xingu.

Entre as preocupações levantadas no evento, estavam o incentivo do governo às invasões de garimpeiros e madeireiros nas terras preservadas pelos indígenas, a contaminação de rios por agrotóxicos e os planos do governo que autorizam a mineração.

Aldeia da Terra Indígena Menkragnoti / Crédito: Reprodução

 

"Hoje nós temos um só inimigo, que é o governo do Brasil, o presidente do Brasil, e as invasões de não indígenas", afirmou Mudjire Kayapó, um dos líderes presentes. "Temos brigas internas, mas, para lutar contra este governo, a gente se junta".

Alianças

Com duração de três dias, o encontro teve duas línguas oficiais: kayapó e português. Quem sediou a reunião foram os kayapós, povo indígena mais numeroso do Xingu. "Não vamos repetir o passado, vamos ter união daqui para a frente", afirmou o cacique Kadkure Kayapó.

Crédito: Reprodução

 

Os Kayapó eram historicamente inimigo dos Panará, que também tiveram seu lugar de fala. "Nós matamos os kayapó, os kayapó nos mataram, nós brigamos com os kayabi, mas não sabíamos ainda o que estava acontecendo sobre o branco, não sabíamos dessa ameaça ainda", afirmou o líder Sinku Panará. "Então esfriamos a cabeça, nos reconciliamos, voltamos a conversar uns com os outros e não vamos mais brigar. Porque existe um interesse comum para que lutemos juntos, para que os não indígenas não matem a todos nós”.

Para Sinku, a vitória de Bolsonaro levou a uma grande aproximação entre etnias inimigas. "Os outros presidentes tinham uma preocupação um pouco maior com as nossas terras (...). Este que chegou agora (Bolsonaro), ele não está preocupado com isso, ele está preocupado em acabar com o que a gente tem e acabar com a gente. Por isso estou com o coração cheio, por isso estamos conversando uns com os outros."

Sinku Panará diz estar preocupado "com as árvores, com a água, com o peixe, com os não indígenas que querem entrar na nossa terra em busca dessas coisas". "Não quero estragar a água com garimpo, com mineração, não quero matar os peixes. Por isso que vim aqui: para fazer esta fala".