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Anos de Chumbo na Itália: As vítimas de Cesare Battisti

Os 4 assassinatos pelos quais foi condenado foram parte de ações de sua guerrilha, numa onda de violência política que durou décadas

Alana Sousa Publicado em 23/05/2019, às 12h00

Cesare Battisti
Cesare Battisti - Reprodução

A Justiça italiana confirmou, ontem, 22, que o guerrilheiro Cesare Battisti será sentenciado a prisão perpétua pelos crimes cometidos durante os Anos de Chumbo de seu país. Battisti, que havia chegado no dia 14 de janeiro à Itália, ficou quase 40 anos foragido, residindo em países como França, México, Brasil, e mais recentemente — onde foi capturado — Bolívia.

O grupo ao qual Battisti pertencia na Itália era conhecido como Proletários Armados pelo Comunismo ou PAC (em italiano Proletari Armati per il Comunismo). Criado em 1976, o grupo tinha, pelo menos, 60 pessoas envolvidas. Eles afirmavam que “a classe trabalhadora era um grupo social politicamente não representado e explorado pelas classes dominantes”.

As ações do PAC, em sua maioria das vezes, não deixavam vítimas. No entanto, quatro assassinatos foram publicamente clamados por eles:  

Antonio Santoro, um guarda de prisão, acusado de maltratar prisioneiros – Udine, 6 de julho de 1978; 

Pierluigi Torregiani, dono de uma joelharia, por ter matado um ladrão em legítima defesa num assalto (algo a que o grupo se opunha); seu filho ficou paraplégico no incidente – Milão, 6 de fevereiro de 1979;

Lino Sabbadin, açougueiro ligado ao Movimento Sociale Italiano, organização neofascista – Caltana Santa Maria de Sala (Vêneto), 16 de fevereiro de 1979;

Andrea Campagna, um agente do Digos (Divisione Investigazioni Generali e Operazioni Speciali), grupo antiterrorista responsável pela prisão de terroristas de esquerda – Milão, 19 de Abril de 1979.

O fim do grupo se deu após diversas prisões de seus membros, em 1979. Cesare Battisti foi diretamente acusado pela morte de Santoro, e também de ter feito o mesmo a Campagna, e condenado como cúmplice em todos os crimes. A pena foi inicialmente de 12 anos, passando depois para duas penas de prisão perpétua.

Anos de Chumbo

Os homicídios ocorreram durante os Anni di Piombo (Anos de Chumbo) da Itália (1960-1980). Foi um período de instabilidade sócio-política, marcada por atos de terrorismo e ataques vindos tanto da extrema direita como da extrema esquerda. O primeiro sangue foi o do policial Antonio Annarumma, morto por uma barra de ferro durante um protesto de extrema esquerda, em 19 de novembro de 1969. Em 12 de dezembro, o atentado a bomba na Piazza Fontana (Milão) deixou 17 mortos e 88 feridos.

Ninguém assumiu a autoria, e uma longa investigação apontou neofascistas como suspeitos, sem chegar a uma conclusão definitiva. A princípio, a polícia achava que era um atentado de esquerda. O anarquista Giuseppe Pinelli, morreu em 15 de dezembro, caindo da janela de uma delegacia, de sua sala de interrogação, o que a polícia afirmou ser “suicídio”. Isso enfureceu a esquerda, e o policial responsável por sua custódia, Luigi Calabresi, seria assassinado em 17 de maio de 1972, causando outra onda de retaliação da direita. 

No auge da violência, o primeiro ministro Aldo Moro foi sequestrado e, após 55 dias de cativeiro, morto pelas Brigate Rosse (Brigadas Vermelhas), em 16 de março de 1978.

No final dessas duas décadas, 428 pessoas terminaram mortas, com mais 2 000 feridas física e mentalmente. A última vítima é considerada o senador Roberto Ruffilli, morto em Forlí em 16 de abril de 1988, após o que as Brigadas Vermelhas declararam estar abandonando a violência, com uma segunda campanha entre 1999 e 2003 levando a mais quatro assassinatos.