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Há 69 anos, o Maracanã era oficialmente inaugurado

Palco da abertura e final da Copa do Mundo de 1950, o estádio transformou o Rio de Janeiro em destino internacional

Flávia Ribeiro Publicado em 16/06/2019, às 07h01

Maracanã iluminado com as cores da bandeira brasileira
Maracanã iluminado com as cores da bandeira brasileira - Reprodução

Inaugurado oficialmente em 16 de junho de 1950, o Estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã, recebeu seu primeiro jogo um dia depois, em 17 de junho. Com a obra ainda inacabada e cheia de andaimes, a seleção de São Paulo venceu a do Rio de Janeiro por 3 a 1.

Sete dias depois, o Maracanã foi palco da abertura da Copa do Mundo de 1950, na partida entre Brasil e México. E, em 16 de julho, ficou marcado pela derrota do Brasil para o Uruguai, por 2 a 1, na final da Copa.

No local onde o Maracanã foi construído para receber os jogos da Copa do Mundo de 1950, funcionava o Derby Club do Rio de Janeiro, fundado em 1885. As provas de turfe foram transferidas para a Gávea em 1932, mas o espaço ainda era coalhado de ferraduras e abrigava restos de cocheiras até o início das obras do estádio. Havia também o gramado que restara da pista de corrida, ideal para as peladas dos meninos da Tijuca, Vila Isabel e arredores. Um deles era Mário Jorge, que em pouco tempo ficaria famoso pelo sobrenome: Zagallo. Hoje com 86 anos, ele acompanhou de perto cada mudança do lugar. Perto de verdade.

Legado de 50

"Eu morava na Rua Professor Gabizo, na Tijuca, e ia a pé para lá, aproveitar aquele gramadinho. Não havia campos e quadras à disposição no Rio, a gente costumava jogar bola na rua mesmo, então o gramadinho era muito bom. Nós afastávamos as pedras e jogávamos", relembra o tetracampeão mundial, duas vezes campeão como jogador, em 1958 e 1962, uma como treinador, em 1970, e uma como assistente técnico, em 1994.

Nos primeiros meses de 1950, com 18 anos, Zagallo era juvenil do Flamengo, mas servia ao Exército. Com as obras atrasadas, os soldados do 6º Batalhão foram convocados para ajudar na retirada do entulho. Após jogar no gramado, Zagallo de repente se via no estádio em construção, ajudando na obra. "Vi o anel, a arquibancada, e pensei: ‘Que loucura! Não vai encher, não!’ O maior campo até então era o do Vasco, me assustei com aquela imensidão", afirma.

Construção do Maracanã 

No dia 16 de julho de 1950, dia da fatídica final da Copa, ele estava novamente no estádio, dessa vez como parte das forças que fariam a segurança do evento. Ao contrário de sua previsão, o Maracanã estava superlotado, com impressionantes 199.854 pessoas. "Fui de verde-oliva, capacete, cassetete, tudo o que eu tinha direito. Foi a primeira Copa que vi na vida. Nunca imaginaria, naquele momento, que oito anos depois seria eu vestindo a amarelinha numa final, e sendo campeão", recorda-se ele, que foi cinco vezes campeão estadual, por Flamengo e Botafogo, jogando no Maracanã.

As lembranças de Zagallo não se restringem ao estádio em si. Morador da vizinhança na época, o técnico afirma que as mudanças foram para melhor: "A construção do Maracanã valorizou muito a região", comenta. Mas a Copa de 1950 deixou mesmo, para usar uma palavra que está na moda hoje em dia, um legado para a cidade? Historiadores divergem. Para Antônio Edmilson Martins Rodrigues, autor, entre outros livros, de João do Rio: A Cidade e o Poeta- Olhar de Flâneur na Belle Époque Tropical, ocorreu, sim, um ganho de estrutura, especialmente em Copacabana e no entorno do Maracanã.

"Há reformulações no trânsito e benesses para os moradores na área do Maracanã que pintam suas casas. Na cidade, há ainda uma grande renovação tecnológica. Porque de repente, em 1950, se torna fundamental falar com o mundo. A Copa, afinal, seria transmitida por rádio, ao vivo, para muitos países. Toda a preparação para aquela Copa acaba dando à cidade do Rio de Janeiro uma estrutura que ela não tinha. Ela se aprimora para se expor. Principalmente em Copacabana, que vira a capital do Rio, o ponto de referência para os visitantes internacionais", diz Edmilson, professor da PUC-Rio e da Uerj.

Joel Rufino dos Santos, autor de História Política do Futebol Brasileiro, acredita que, fora o próprio Maracanã, o único "legado" relevante da Copa foi a Favela do Esqueleto, que surgiu durante a construção do estádio e ao longo da década de 50. A comunidade chegou a ter quase 12 mil habitantes, distribuídos em cerca de 4 mil barracos erguidos com restos do que seria o Hospital das Clínicas da Universidade do Brasil e com o entulho do Maracanã.

Barracão de zinco

"As sobras da obra do Maracanã eram usadas para se erguerem ali barracos de madeira e zinco, ocupados pelos próprios trabalhadores, pedreiros e suas famílias", afirma Joel, lembrando que a favela foi demolida em 1965, durante o governo de Carlos Lacerda – e, nos anos 70, ali foi construído o prédio da Universidade Estadual da Guanabara (UEG), atual Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Para Raul Milliet, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), a Copa de 50 não teve impacto na economia ou no turismo do Rio. Territorialmente, no entanto, a cidade se expandiu de forma mais efetiva para além da Praça da Bandeira, povoando ainda mais a confluência de Tijuca, Vila Isabel e Andaraí. E o Rio se fortaleceu como referência futebolística para o Brasil e o mundo. "Para o futebol brasileiro, a mudança acontece depois da Copa, quando se percebe a necessidade de se profissionalizar de fato o esporte. Para o país e, principalmente o Rio, há a volta de Getúlio Vargas e as grandes campanhas, como a do O Petróleo É Nosso. Esses fatos, junto com a própria Copa, criam um caldo cultural de enorme impacto no imaginário da cidade", afirma Raul.

Maracanã em 2012, durante a reconstrução 

 

Estádios ativos

Com a Europa devastada pela guerra, a Copa do Mundo voltou para a América Latina em 1950, depois de duas edições europeias: Itália, em 1934, e França, em 1938 – a primeira, em 1930, havia sido no Uruguai. Enquanto em 2014 houve 12 cidades-sede, em 1950 foram seis. Entre os estádios da época, só o Maracanã recebeu jogos na Copa de 2014. Na verdade, um novo Maracanã, totalmente reconstruído entre 2010 e 2013. O antigo ainda deixa saudades.

Mas que não se pense que, há 68 anos, diferentemente de hoje, não havia opositores às obras da Copa. Dono do jornal Tribuna da Imprensa e deputado federal, o futuro governador da Guanabara, Carlos Lacerda, fez enorme campanha contra a construção do Maracanã.

Havia temor e incredulidade de parte da população em relação não só ao Mundial, mas também aos rumos do progresso, especialmente numa cidade onde o transporte já era caótico e uma quadrinha brincava: "Rio de Janeiro / Cidade que me seduz / De dia falta água / De noite falta luz".

O clima geral, no entanto, era de euforia. Pela Copa, pelo futebol brasileiro e pelo desenvolvimento do país, liderado pela Cidade Maravilhosa. Algo que as autoridades gostariam que tivesse se repetido em 2014. Em 1950, boa parte da população brasileira vibrou durante toda a competição e acreditava, sim, que o Brasil era o país do futuro.

E o Rio de Janeiro, capital político-cultural do país, deveria assumir a condição de cidade-chave na formação do Brasil moderno e civilizado. A construção do maior estádio do mundo até então, o Maracanã, se dá nesse contexto de Brasil grande. O ano de 1950 foi, afinal, o da volta de Getúlio Vargas à presidência, dessa vez eleito democraticamente, nos braços do povo. Com ele, o nacional-desenvolvimentismo ganhou fôlego.

Estádio foi palco das Copas de 1950 e 2014 

 

"O sonho brasileiro de um país forte, industrializado e democrático está simbolizado pela volta de Getúlio. Há, nesse momento, o fortalecimento de novos atores sociais, vindos do mundo do trabalho. Getúlio governa apoiado em sua relação com a classe operária sindicalizada", diz Antônio Edmilson Martins Rodrigues. "E 1950 é um marco por causa dele e por causa da Copa".

O Brasil grande era também o País do Futebol. Como explica Joel Rufino, a ideia de que temos o melhor futebol do mundo surge nos 
anos 40, na ditadura de Vargas, mas cresce no seu segundo governo. Faz parte da cultura do populismo. "Por isso aquela final contra o Uruguai doeu tanto. Porque não foi só a derrota do futebol. Foi a derrota de uma crença", explica.

Crença essa que foi reconstruída ao longo da década: "Com o fim da Segunda Guerra e do Estado Novo, em 1945, parece que há um vazio de ideias políticas no mundo e aqui. Surge então, no Brasil, o autoritarismo militar da Escola Superior de Guerra. Para se contrapor a isso, fortalece-se o nacional-desenvolvimentismo, que surge para construir a nação, derrotando o imperialismo e o latifúndio".

Só oito anos depois do silêncio monumental de 50, longe, na Suécia, o Brasil finalmente confirmou sua posição de melhor futebol do mundo.


Saiba mais

Rio corre para o Maracanã, Gisella Moura, Editora FGV, 1998