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Simulação de aprisionamento de Stanford: o polêmico experimento que acabou em tragédia

A pesquisa de psicologia simulava uma prisão para relatar o comportamento de presos e guardas, entretanto, teve que ser abortada por sair completamente dos trilhos

André Nogueira Publicado em 22/01/2020, às 10h09

Cena do filme Stanford Prision Experiment (2015)
Cena do filme Stanford Prision Experiment (2015) - IFC Films

Em 2015, foi lançado o insólito filme The Stanford Prison Experiment, uma reconstrução de uma das mais bizarras e relevantes pesquisas em psicologia social aplicada em prisões da História. Trata-se de um experimento tão profundo que os resultados levaram ao abandono do projeto, que resultou em cenários de tensão e violência mais drásticos que o imaginado.

Na vida real, o projeto de 1971 comandado pelo psicólogo da Universidade de Stanford, Philip Zimbardo, reproduziu na prática os estudos de Gustave Le Bom sobre os processos subjetivos de desindividualização e violência em cenários coletivos despersonalizantes. No caso, existiu uma simulação de prisão em que parte dos voluntários foi colocada na posição de guarda e outra como prisioneiros.

Os estudos tinham como objetivo averiguar hipóteses sobre a perda de aspectos como personalidade, empatia, senso de responsabilidade e consciência coletiva entre indivíduos colocados em situação de pressão como a cadeia, em que se perde a individualidade. Os impulsos antissociais, que corroboravam com o estudo, ocasionaram tamanha discórdia que foi necessário abortar o projeto.

Zimbardo / Crédito: Wikimedia Commons

 

 

Um dos principais problemas do experimento é dubiedade ética. Ao colocar voluntários como guardas de outros, abriu-se um espaço para o abuso da violência que saiu fora de controle. Foi provado, com isso, que os membros da cadeia eram autosseletivos em atitudes de agressão, sendo que o ambiente da penitenciária criava, em si, estímulos à violência.

Então, foram selecionados por sorte parte dos diversos voluntários que se dispuseram a participar do evento, dando preferênca o alistamento no Exército. O grupo criado foi disposto, metade como guarda e a outra parte como cativo, num ambiente simulando uma prisão no subsolo do Departamento de Psicologia da universidade.

A partir de então, iniciou-se o processo de despersonalização dos voluntários, tanto na posição de prisioneiro transformado em número quanto a de policial, transformado numa máquina de repressão. Os carcereiros recebiam porretes e uniformes iguais, óculos de sol (um importante macete para a impessoalidade) e horários numa distribuição de turnos de trabalho.

Já os prisioneiros foram colocados em situação de insalubridade, vestindo roupões abertos, impedidos de usarem roupas íntimas e restringidos ao uso de chinelos de borracha. Perdiam o nome e ganhavam um número, além de uma meia de nylon na cabeça, simulando o corte de cabelo, e correntes aos pés.

Guardas reais / Crédito: Stanford Prison Experiment

 

 

Diante desta disposição de cargos, os guardas foram instruídos a tratar os prisioneiros da maneira mais impessoal possível. Porém, não foi determinada nenhuma indicação formal de como deveriam agir, além da proibição da violência física. Foi dada aos "guardas" a responsabilidade total pela manutenção da prisão.

Já os prisioneiros foram abordados de verdade pela polícia local em suas casas, acusados de roubo à mão armada. Foram levados pelo camburão para a Universidade, fichados, fotografados, informados de seus direitos e jogados nas celas.

Rapidamente, diante da situação de fragilidade, os presos passaram a sofrer violências das autoridades. Todo o experimento saiu de controle. O tratamento subversivo de abuso e sadismo dos guardas começou a engatilhar crises e distúrbios emocionais que fizeram eclodir uma rebelião de detentos.

Aproveitando-se da posição de autoridade, muitos guardas passaram a se voluntariar para participar da repressão às revoltas, mesmo fora de seu expediente. Sem a supervisão do Superintendente Zimbardo, começaram a usar extintores e cassetetes na contenção dos prisioneiros.

Abuso dos policiais simulados / Crédito: Stanford Prison Experiment

 

Um outro objetivo também aflorou: criar intrigas internas entre os prisioneiros, os desarticulando. Dividindo os cativos como forma de contê-los, a prisão simulada logo parecia uma penitenciária real.

O que eram procedimentos padrões da organização, como contagens e transferências, logo se tornaram círculos de humilhação gratuita em que os prisioneiros eram submetidos a exercícios abusivos e constrangimentos. Até o uso do banheiro, cama e alimentação começaram a ser restringidos como forma de dominação. O que desencadeou mais revoltas e até uma greve de fome.

O nível da catástrofe foi tão alto que, em certo momento, Zimbardo optou por abortar o experimento, em nome da integridade dos participantes. Com muitos deles traumatizados e com a saúde fragilizada, o pesquisador optou por chamar uma psicóloga que não estava envolvida com a simulação para analisar a situação dos indivíduos a partir de entrevistas.

Prisioneiros eram obrigados a limpar os sanitários sem qualquer proteção / Crédito: Stanford Prison Experiment

 

Uma pesquisadora envolvida romanticamente com o chefe do experimento, foi a única pessoa a, ainda no decorrer da situação, questionar a ética daquilo.

O experimento prisional de Stanford foi uma das mais violentas e perigosas pesquisas práticas da história da academia, e a partir dela, questões como a ética envolvida na ciência e a proteção a participantes de experimentações passaram a ser mais relevantes na visão dos pesquisadores.

Finalizando em seis dias uma atividade que duraria duas semanas, a catástrofe daquela prisão abriu os olhos de muitos sobre a toxidade de instituições desindividualizantes.


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