Os antigos realmente acreditavam que a Terra é plana?

Sim – mas muito tempo antes do que as pessoas imaginam; nos tempos das cruzadas, ninguém (educado) acreditava

segunda 24 setembro, 2018
Na borda do mundo
Na borda do mundo Foto:Domínio Público

Você provavelmente já escutou a história de que na Idade Média acreditava-se que a Terra era um disco. Conta-se que, já na Renascença, Cristóvão Colombo foi aconselhado a abortar suas atividades desbravadoras para não cair na borda do mundo. 

E é provável que existissem essas pessoas – assim como hoje. Se você perguntasse a algum aldeão isolado, talvez ouvisse essa resposta. É intuitivo, afinal – você pode andar em qualquer direção e tudo vai parecer igualmente “plano”.

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Mas ninguém realmente educado da época de Colombo pensava assim: a forma da Terra já havia sido estabelecida quase 2 mil anos antes (veja abaixo). E as pessoas educadas da Idade Média sabiam isso. O modesto padre do vilarejo do aldeão hipotético saberia. 

Como relembra Chris Fleming, professor e pesquisador da Universidade de Western Sydney, já no século 5 os cristãos assumiram a posição oficial que nosso planeta era esférico. Ele cita o exemplos no monge inglês São Beda (século 7), e o grande teólogo e filósofo Tómas de Aquino (século 13). O historiador da Universidade da Califórnia, Jeffrey Burton Russell, é taxativo: poucos eram os instruídos após o século 3 que acreditavam em terra plana.

Segundo Fleming, a lenda da Terra Plana na era de Colombo foi invenção do escritor Washington Irving (1783-1859), uma sátira à suposta estupidez supersticiosa medieval. “Muitas vezes estamos excessivamente ansiosos para reconstruir o passado - ou nossa versão do que foi o passado – e em nossas tentativas de nos sentirmos melhor sobre o quanto somos iluminados e quão ignorantes eram nossos predecessores, possíveis inverdades são propagadas”, afirma o historiador.

Terraplanismo ontem e hoje

O movimento terraplanista moderno surgiu em 1956, com a Flat Earth Society (“Sociedade da Terra Plana”), iniciada por Samuel Shenton e conduzido por Charles K. Johnson a partir de 1972. Johnson, por exemplo, dizia que o Programa Apollo falsificou as imagens do espaço. E que a visão correta do mundo é a tradicional cristã – que, de acordo com ele, prega que a Terra é plana.

A Bíblia jamais diz “a Terra é plana”. Mas alguns versículos dão a entender que seus autores acreditavam nisso. Por exemplo, no Livro de Jó, 38:12-13:

“Você já deu ordens à manhã ou mostrou à alvorada o seu lugar,
para que ela apanhasse a terra pelas pontas e sacudisse dela os ímpios?”

Uma Terra com pontas é plana, dizem os literalistas bíblicos. Mas a visão cristã mais tradicional cristã é que esse e outros versos são simplesmente metáforas. 

Não é impossível que o autor do livro de Jó, escrito, acredita-se, no século 7 a.C., acreditasse que a Terra era plana. Ao longo da civilização humana, diferentes culturas, em diferentes épocas, tiveram suas próprias visões de mundo como um disco ou calota, e nem todas podem ser facilmente resumidas com a expressão “Terra plana”. Nem a ideia de uma Terra plana é algo exclusivo do mundo ocidental.

Diversas concepções indianas, como hinduísmo e budismo, vinculam sua cosmografia a imagens botânicas, com a Terra sendo composta por quatro continentes cercando uma montanha. Na China e no Japão, só foi no século 16, com a chegada dos ocidentais, que passou-se a entender a Terra como esférica. O antigo pensamento nórdico pregava que a Terra era plana e circular, cercada por um mar habitado por uma serpente gigante.

Abaixo, como os antigos viram o universo através das eras. 


A forma do Universo ao longo da história

2500 a.C. – Egípcios

A tradição da Mesopotâmia, Egito, e, mais tarde, os autores do Velho Testamento diziam que o mundo ficava num grande oceano, sustentado por pilares que o impediam de afundar, e que havia outro oceano atrás das estrelas, fixas numa esfera celeste. Reprodução/AH

Séc. 6 a.C. – Anaximandro

O filósofo pré-socrático fez o que Karl Popper chamaria de a “primeira revolução” da astronomia ao conceber uma Terra que não precisava de sustentação, simplesmente estava lá, no espaço, mas como o centro de tudo. Para ele, o formato do mundo era cilíndrico. Reprodução/AH

Séc. 4 a.C. – Aristóteles

Tradicionalmente, Pitágoras, que viveu antes de Anaximandro, descobriu que a Terra é esférica. Acredita-se hoje que isso seja só uma atribuição de outros astrônomos, para dar autoridade às próprias ideias. No século 4 a.C., Aristóteles fixou o modelo com Terra esférica. Em volta, orbitavam todos os planetas e as estrelas, em esferas concêntricas. Reprodução/AH

1543 – Copérnico

Observações astronômicas precisas tornavam muito complicado calcular as órbitas dos planetas e do Sol em volta da Terra. Eles teriam que fazer movimentos extremos, em espiral, para dar certo. O polonês que resolveu isso tirando a Terra do centro, numa teoria incendiária. O Sol, porém, ainda era o meio de tudo, e as estrelas continuavam fixas.Reprodução/AH

1750 – Thomas Wright e Immanuel Kant

O matemático britânico e o filósofo alemão fizeram a próxima grande revolução ao mostrar que existia a Via Láctea. Assim, que o Sol não era o centro do Universo. Eles já propuseram então que as nebulosas eram outras galáxias, mas a maioria dos astrônomos passou a considerar o centro de nossa galáxia como o centro do Universo até o século 20. Reprodução/AH

1927 – Georges Lemaître

Cinco anos após o americano Edwin Hubble provar que Thomas Wright e Immanuel Kant estavam certos e havia bilhões de outras galáxias, um padre belga buscou responder à questão da aparente expansão do Universo. Para ele, tudo surgiu de uma explosão, o Big Bang. Que, porém, não aconteceu no espaço, pois o espaço não existia ainda. Não há centro nessa explosão. Reprodução/AH
Lucas Vasconcellos


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