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Luzia, o fóssil mais famoso do Brasil, não tinha nada de australiana, diz estudo

Vasta análise genética indica que o fóssil mais famoso do Brasil foi reconstruído de forma equivocada

Fábio Marton Publicado em 09/11/2018, às 16h34 - Atualizado às 18h23

Indígena brasileira moderna: Luzia não devia ser muito diferente
Indígena brasileira moderna: Luzia não devia ser muito diferente - Getty Images

É uma das maiores controvérsias da paleo-arqueologia do continente americano. Encontrada em Lagoa Santa, Minas Gerais, com idade estimada em 11 500 anos, Luzia é um dos fósseis mais antigos do continente americano. Mas, desde que começou a a ser estudada, nos anos 90, os arqueólogos notaram algo diferente nela. Sua estrutura craniana parecia muito mais próxima daquela dos aborígenes australianos e negritos de Nova Guiné – povos australásios – que a dos nativos brasileiros atuais. Com a reconstutição de sua face por Richard Neave, em 1999, estava consolidada a grande briga dos arqueólogos da colonização das Américas. Mais tarde, testes genéticos em grupos brasileiros atuais indicaram uma pequena presença de marcadores australásios, aparentemente confirmando a teoria. Enquanto isso, detratores passaram a afirmar que o formato do crânio de Luzia estaria dentro das variações possíveis para uma nativa-brasileira típica. 

Reconstrução de Luzia pela teoria australásia Cícero Moraes

Teria o continente sido também colonizado a partir da Austrália ou algo do tipo, antes dos ancestrais comprovadamente asiáticos dos índios modernos? Mas como? 

Um grupo de arqueólogos liderado por Eske Wileslev, professor das universidades de Cambridge e Copenhague, acredita ter provado que o misterioso povo de Luzia não era tão misterioso assim. Segundo seu estudo, Luzia era parte dos legítimos ancestrais dos índios modernos – e certamente não se parecia com australásios. As reconstruções que a retratam dessa forma – basicamente todas – estariam baseadas numa interpretação equivocada.

O estudo foi publicado na Science. Além de Luzia, eles testaram o DNA restos de todo o continente, inclusive alguns dos mais antigos conhecidos, como a múmia na Spirit Cave (EUA). Também diversas ossadas do Chile, além de uma bem mais recente múmia Inca. 

O resultado é que todos esses humanos se mostraram semelhantes aos índios modernos da América do Norte, por onde começou a colonização asiática da América. “Spirit Cave e Lagoa Santa eram muito controversos porque foram identificados como os assim chamados ‘paleo-americanos’ – foi determinado que o formado de seus crânios era diferente dos atuais nativo-americanos. Nosso estudo mostra que Spirit Cave e Lagoa Santa eram geneticamente próximos dos nativo-americanos que de qualquer outro grupo antigo ou contemporâneo sequenciado até hoje”, afirma Wileslev, ao Heritage Daily. 

Isso não quer dizer que não houve colonização australásios. Mas que Luzia ou a múmia de Spirit Cave não fazem parte dela, como se pensava. E que ficamos sem nenhum exemplar dos paleo-americanos. O geogeneticista Dr Victor Moreno-Mayar, da Universidade de Copenhague, afirmou ao HD: “Descobrimos que os marcadores genéticos australásios estavam ausentes nos antivos americanos antes da separação entre as população da Spirit Cave e de Lagoa Santa, o que quer dizer que grupos carregando esses marcadores ou já estavam presentes na América do Sul quando os nativos americanos chegaram à região, ou os australásios depois. O fato desse marcador não ter sido documentado na América do Norte implica que um grupo mais antigo portando-o desapareceu ou um grupo chjegando depois passou pela América do Norte sem deixar qualquer traço genético”.

Outra coisa que eles notaram é como a colonização da América do Sul pela leva de migrantes asiáticos parece ter sido rápida. Luzia e a múmia de Spirit Cave foram ambas datados em 11 500 anos atrás.