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Notícias / Crimes

Mãe de Moïse desabafa sobre assassinato do jovem: “Que vergonha!”

Ivana Lay fala sobre como recebeu a notícia e revela detalhes da relação do jovem com o trabalho: 'Meu filho amava o Brasil'

Fabio Previdelli Publicado em 01/02/2022, às 14h53 - Atualizado às 16h45

O jovem congolês Moïse Kabamgabe - Divulgação/ Arquivo Pessoal
O jovem congolês Moïse Kabamgabe - Divulgação/ Arquivo Pessoal

Na segunda-feira da semana passada, 24, o jovem congolês Moïse Kabamgabe, de 24 anos, foi espancado até a morte depois de cobrar o pagamento de seu salário atrasado no quiosque que trabalhava próximo ao Posto 8, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro

Conforme repercutido pela equipe do site do Aventuras na História, Kabamgabe foi agredido por cinco homens. Gravações de câmeras de segurança apontam que o fatal episódio durou cerca de 15 minutos. 

Em entrevista ao site do jornal Extra, Ivana Lay, mãe de Moïse Kabamgabe falou sobre a vinda do filho ao Brasil e de todas as dificuldades que a família enfrentou em sua terra natal, a República Democrática do Congo. 

“Morávamos em uma região onde fica a guerra. Uma guerra tribal civil entre os hema e os lendu. Somos Hema. Tudo começou quando meus filhos mais velhos estavam pequenininhos. Essa guerra étnica tinha disputas toda semana. Não sei como começou. Essas duas tribos, até hoje, são problemáticas”, revela. 

Lay diz que a guerra vitimou sua mãe e acabou com toda sua família, com o pai de Moïse tendo desaparecido por conta do conflito. Por essas questões, ela conta que decidiu se mudar para o Brasil, em 2014, onde buscava uma melhor qualidade de vida. 

Meus filhos começaram a estudar. Eles chegaram aqui pequenos. O Moïse [Mugenyi Kabagambe] chegou aqui com 11 anos, em 15 de fevereiro de 2011. Ele veio primeiro. Nesses anos todos, o meu filho virou um brasileiro. Tudo dele era do Brasil. Ele sabia como trabalhar no Brasil, fez muitos amigos”, relata.

Ivana Lay conta que a relação com os brasileiros sempre foi muito boa e amistosa. A mãe de Kabagambe diz que o filho começou a trabalhar na barraca onde foi morto antes da pandemia. “Eles conheciam o meu filho e tiraram a vida dele. Se houve algum problema, eles não poderiam matá-lo. Moïse conhecia tudo na praia. Quando queriam alguma coisa, eles chamavam: ‘Angolano, angolano’”.

A mulher revela que, naquela segunda-feira, 24, Moïse saiu de casa para trabalhar e a avisou que receberia naquele dia. No dia anterior, domingo, o jovem já havia compartilhado seus planos de sair para beber com os amigos após o pagamento. “Acho que ele foi reclamar, e bateram nele. Cinco pessoas bateram nele”.

Os últimos passos de Moïse

No dia 24, Lay conta que o filho saiu cedo para ir trabalhar junto a um amigo, que também era empregado do local. Segundo conta, o jovem já havia se queixado anteriormente do serviço, alegando que estava sendo sacaneado. 

“Ele era trabalhador e muito honesto. Ganhava pouco, mas era dele. No final, chegava com parte do dinheiro e me dava para ajudar a pagar o aluguel. E reclamava, dizendo que ganhava menos que os colegas”, revela a mulher.

Por volta das 7 horas da manhã, Ivana Lay diz que um outro filho lhe ligou para saber de Moïse. Pouco depois ela recebeu outra ligação perguntando se ele já havia chegado no trabalho. “E eu disse que não. Eu perguntei o que tinha acontecido, e eles disseram que era para eu ter calma”

“Em nenhum momento, eu tinha pensado que o meu filho estava morto. Pensava num acidente ou algo parecido. Às 11h, um africano me ligou e disse que o Moïse havia falecido e estava no IML [Instituto Médico-Legal, no Centro do Rio]”, completa.

Que vergonha! Meu filho que amava o Brasil. Por que eles mataram o meu filho? Moïse tinha todos os amigos brasileiros. Aí vêm os brasileiros e matam o meu filho”, diz. “Por quê? Por que ele era pretinho? Negro? Eles mataram o meu filho porque ele era negro, porque era africano?”

Ivana conta que processará as pessoas que mataram Moïse e torce para que o caso não ‘caia no esquecimento’ popular. A mulher conta recebe diversas mensagens por dia de pessoas no Congo lamentando o que aconteceu. “Quando meu povo, no Congo, soube, eles fizeram um protesto. Eles gritaram contra isso”. 

“Não podem matar as pessoas assim. Eles quebraram as costas do meu filho, quebraram o pescoço. Eu fugi do Congo para que eles não nos matassem. No entanto, eles mataram o meu filho aqui como matam em meu país. Mataram o meu filho a socos, pontapés. Mataram ele como um bicho”, desabafa.

O relato na íntegra de Ivana Lay pode ser lido aqui!