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Sem esterilização e anestesia: Livro revela o bizarro mundo da cirurgia do século 19

Medicina dos Horrores, obra de Lindsey Fitzharris, explica como Joseph Lister revolucionou a história da cirurgia

Vinícius Buono Publicado em 09/07/2019, às 00h00

Quadro de Rembrandt: "Lição de Anatomia do Dr. Tulp"
Quadro de Rembrandt: "Lição de Anatomia do Dr. Tulp" - Wikipédia / Commons

Dos mais simples aos mais invasivos, os procedimentos cirúrgicos, hoje em dia, levam em conta todo o rigor necessário para que se evitem problemas no pós-operatório como as infecções, mas nem sempre foi assim.

No livro Medicina dos Horrores, a historiadora Lindsey Fitzharris conta a história de Joseph Lister, médico inglês considerado pai da cirurgia moderna. Com base nos estudos de Louis Pasteur, Lister foi a primeira pessoa a reconhecer os problemas causados pela falta de higiene e de sanitização nas operações, e o uso do fenol para tal fim foi revolucionário na medicina como um todo. 

No livro, a autora imerge no mundo da cirurgia antes de Lister, no século XIX, quando procedimentos, como esterilização e até mesmo anestesia, eram completamente desconhecidos para os médicos da época, que costumavam, inclusive, se vangloriar da velocidade, força e das manchas de sangue em suas vestes.

As cirurgias eram feitas em anfiteatros para quem quisesse assistir num espetáculo mórbido — e, para surpresa de ninguém, as exibições estavam sempre lotadas. Como ainda não se tinha conhecimento da existência de germes e microorganismos, os médicos não entendiam o alto índice de mortalidade após a realização dos procedimentos.

Assim, Fitzharris nos leva a uma jornada com o jovem Lister e seus contemporâneos pelas escolas de medicina, hospitais, as "casas de morte" onde estudavam anatomia e os cemitérios de onde, como Da Vinci alguns séculos antes, roubava cadáveres para estudo. O livro mostra como a coragem e ousadia de Lister revolucionaram o campo das cirurgias e da medicina como um todo, com suas contribuições sendo usadas e reverenciadas até hoje.

Confira um trecho da obra. 

"Na tarde de 21 de dezembro de 1846, centenas de homens lotaram o anfiteatro cirúrgico do University College Hospital de Londres (UCL), onde o cirurgião mais famoso da cidade se preparava para fasciná-los com uma amputação na altura do meio da coxa. À medida que entravam, as pessoas não tinham a menor ideia de que estavam prestes a assistir um dos momentos mais cruciais da história da medicina.

O anfiteatro estava abarrotado de estudantes de medicina e espectadores curiosos, muitos dos quais haviam arrastado consigo para o recinto a sujeira e a fuligem do dia a dia da Londres vitoriana. O cirurgião John Flint South comentou que a correria e os empurrões para conseguir um lugar num anfiteatro cirúrgico não diferiam dos observados na disputa por assentos na plateia ou na galeria dos teatros. As pessoas se amontoavam como sardinha em lata, e as que ocupavam as últimas fileiras se acotovelavam constantemente para conseguir um ângulo melhor, gritando "Abaixem a cabeça!" toda vez que sua visão era bloqueada. Em algumas ocasiões, a plateia desses anfiteatros ficava tão cheia que o cirurgião era impossibilitado de operar, e o espaço precisava ser parcialmente esvaziado. Embora fosse inverno, a atmosfera no anfiteatro era abafada, beirando o insuportável. Com as pessoas amontoadas, o lugar ficava num calor infernal.

A plateia era formada por um grupo eclético de homens, alguns dos quais não eram profissionais nem estudantes de medicina. Tradicionalmente, as duas primeiras fileiras de um anfiteatro cirúrgico eram ocupadas por "assistentes hospitalares", termo que se referia àqueles que acompanhavam os cirurgiões em suas rotinas, carregando caixas com os suprimentos necessários para fazer curativos. Atrás dos assistentes ficavam os alunos, empurrando-se e cochichando uns com os outros, inquietos, além de convidados de honra e outros membros do público.

O voyeurismo médico nada tinha de novo. Surgira nos anfiteatros de anatomia mal iluminados do Renascimento, onde, diante de espectadores fascinados, os corpos de criminosos executados eram submetidos à dissecação, como um castigo adicional por seus crimes. Os presentes, munidos de ingressos, observavam os anatomistas cortarem o ventre distendido de cadáveres em decomposição, de cujos órgãos jorravam não apenas sangue, mas também o pus fétido. Às vezes, as notas cadenciadas, mas incongruentes de uma flauta acompanhavam a macabra demonstração. As dissecações públicas eram apresentações teatrais, uma forma de entretenimento tão popular quanto as rinhas de galou ou o açulamento de cães contra ursos aprisionados. Nem todos, porém, tinham estômago pra elas. O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, por exemplo, disse o seguinte sobre essa experiência: "Que visão terrível é um anfiteatro de anatomia! Cadáveres fétidos, a carne lívida e purulenta, sangue, intestinos repulsivos, esqueletos medonhos, vapores pestilentos! Acreditem, não é um lugar em que eu vá para procurar diversão".

O anfiteatro cirúrgico do University College Hospital era mais ou menos igual aos outros da cidade. Consistia num palco parcialmente cercado por uma arquibancada semicircular, cujos degraus subiam em direção a uma grande claraboia que iluminava a área abaixo. Nos dias em que nuvens carregadas bloqueavam a luz solar, o palco era iluminado por velas grossas. No centro do aposento ficava uma mesa de madeira, manchada por sinais reveladores de carnificinas anteriores. Embaixo dela, o piso era coberto de serragem, para absorver o sangue que logo brotaria do membro amputado. Na maioria dos dias, os gritos dos que se debatiam sob a faca se misturavam numa sinfonia dissonante com os sons corriqueiros que vinham da rua: crianças rindo, gente conversando, charretes ribombando ao passar".


Medicina dos Horrores, Lindsey Fitzharris, 320 páginas, 59,90, Editora Intrínseca, 2019