Pedro Américo: A independência como não foi

Pintura mais clássica retratou um momento crucial, com muitas (muitas mesmo) licenças poéticas

quinta 6 setembro, 2018
Nem todos sabem a verdadeira história sobre esta imagem
Nem todos sabem a verdadeira história sobre esta imagem Foto:Wikimedia Commons

Você provavelmente se lembra do professor do Ensino Médio fazendo chacota com a Independência do Brasil. Ou talvez tenha sido aqui mesmo na AH. No mais fatídico dia deste país, o futuro imperador estava com diarreia, montado numa mula e com as botas sujas de lama. Tudo verdade. Quando o pintor acadêmico Pedro Américo recebeu a encomenda da família real, ele abusou de licença poética. Exceto pelo imperador brandindo sua espada e gritando, tudo no colossal Independência ou Morte é invenção do artista.

Pedro Américo transformou uma cena trivial e provavelmente bem feia num épico de batalha - colocando um regimento inteiro vestido em uniformes de gala, prestes a combater, alguns até em posição de combate, com seus cavalos em movimento. Era certamente a forma como a monarquia brasileira, invicta nas guerras que havia travado até então, preferia ser representada. Mas, como o quadro, era mais pompa e circunstância que realidade: no ano seguinte à conclusão da obra, o imperador seria deposto num golpe militar. O Museu da Independência (Museu Paulista), para o qual havia sido encomendado, só seria aberto em 1895, já durante a República.

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Ainda que o quadro certamente não retrate a vida real, ele é verdadeiro de certa forma. O que dom Pedro fez, seja lá como se sentisse dos intestinos, foi realmente um gesto heroico: ao ouvir que a monarquia portuguesa o havia tirado do cargo de regente do Brasil, ele imediatamente declarou guerra. Não há outra interpretação para suas palavras - que, aliás, são um dos desafios mais corajosos da História militar mundial.

Independência ou Morte, de Pedro Américo Wikimedia Commons

1. O grito

 

Após arrancar a braçadeira com as cores de Portugal e instar sua guarda a fazer o mesmo, dom Pedro declarou guerra à metrópole. Não há outra forma de interpretar algo tão dramático quanto “independência ou morte”. E guerra haveria: os combates se estenderiam por mais de dois anos e custariam até 3 mil vidas.

2. Animal errado

 

O cavalo é certamente uma licença artística compreensível. Ainda que não seja explícito nas fontes, o caminho do litoral para São Paulo era feito em mulas, que tinham resistência para aguentar a subida. Ao reimaginar a cena banal como um quadro militar, Pedro Américo pôs o imperador numa montaria de batalha.

3. Cena rural

 

Os limites urbanos de São Paulo estavam longe de chegar ao Ipiranga em 1822. A cidade era a capital da província, mas era minúscula e desimportante. Seria a visita do futuro imperador que começaria a mudar isso. Porque a cidade foi palco da Independência que dom Pedro promoveria-a a “cidade imperial” e faria a primeira faculdade de direito do Brasil ali, em 1827. Durante todo o século 19, a elite brasileira se formaria em São Paulo.

4. Comitiva modesta

 

Havia no máximo 14 homens na Guarda de Honra do imperador, e certamente eles não estavam usando os uniformes de gala da pintura, nem, se estivessem, pareceriam tão bem após dias subindo a serra, em meio a lama e mato. O movimento e o pó subindo de seus cascos também são artificiais, como se os animais estivessem agitados, em plena batalha.

5. A casinha

 

O pintor localizou a cena em frente a uma casinha rural – e tal casinha existia ao lado do terreno onde se estava construindo o Museu Paulista. A dita “Casa do Grito” existe ainda hoje. Mas, numa ironia histórica, foi reformada para parecer com a do quadro. Provavelmente não estava lá no dia do grito: o documento mais recente dela data de 1884, época da construção do museu.

6. Rio invisível

 

É fácil deixar passar o próprio Rio Ipiranga esquecido na parte mais baixa do quadro. Isso porque não é algo que daria para romantizar: ele era um mero córrego, com uma “margem plácida” a centímetros da outra. Hoje é um pouco mais largo, mas por um péssimo motivo: o volume extra vem do esgoto jogado nele.

Fabio Marton


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