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Mesmo em luto pela morte do pai, FHC sofreu repressão de agentes da ditadura

Em ‘O Presidente Improvável’, que estreia hoje, 31, Fernando Henrique relembra exílio e recorda motivo que o levou a ser preso pela OBAN

Fabio Previdelli Publicado em 31/03/2022, às 09h31

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso - Organização Mundial do Comércio via Wikimedia Commons

Após o Golpe Militar de 31 de março de 1964, que ocorreu há exatos 56 anos, o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), órgão criado em 1924, passou a ser responsável, nos estados, pelo controle e pela repressão de movimentos políticos contrários ao governo.

Com isso, diversas pessoas passaram a ser perseguidas, sendo que muitas delas escolheram exilar-se com medo da repressão dos militares. Uma destas foi o sociólogo e professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), Fernando Henrique Cardoso, que mais tarde se tornaria presidente do Brasil por dois mandatos seguidos (de 1995 a 2002).

No documentário “O Presidente Improvável”, que será lançado hoje, 31, o diretor Belisário Franca resgata a trajetória de FHCe revela detalhes sobre o período em que ele se exilou no Chile. 

“A Polícia começou a perseguir. Prenderam um amigo meu chamado Bento Prado, que era um filósofo, achando que era eu. Mas eu não tinha ligação direta com nenhum grupo desses que eram chamados de subversivos”, diz Fernando Henrique na produção. 

Eu tive que não voltar para minha casa em certa altura. E fui pro Chile, onde fiquei por quatro anos. Eu nunca entendi bem por que”, continua.

FHC relembra que, naquela época, Santiago era considerada a capital do exílio. “Todo mundo da América Latina que tinha problemas políticos acabava em Santiago”. 

O amargo caviar do exílio

Sobre o tempo em que passou no país, o sociólogo considera o período muito importante, pois, segundo ele mesmo diz, esse intervalo fora do Brasil deu aos exilados a noção de que eles pertenciam a uma comunidade mais ampla, que tinham essa visão das adversidades da América Latina. “Quando eu cheguei no Chile eu já estava empregado, pela CEPAL [(Comissão Econômica para a América Latina]”, recorda.

Eu posso dizer que eu chamava de o amargo caviar do exílio. Era caviar, mas era amargo. Por que que era amargo? Quando meu pai morreu, eu estava lá”.

FHC recorda que, numa manhã de domingo, recebeu a visita do economista Osvaldo Sunkel. “Ele trouxe um telegrama e disse assim: ‘Sapo faleceu’. Ele não sabia que era meu pai. Eu falei: 'meu pai morreu’”. 

Com o trágico informe, Fernando Henrique tomou a difícil decisão de voltar ao Brasil para participar da missa de seu pai. Mesmo em seu momento de luto, conta que não teve vida fácil em relação aos militares. 

Fernando Henrique durante a década de 1970/ Crédito: Alexandre0802 via Wikimedia Commons

“Na missa, que foi numa igreja importante lá do Rio, tinha muita gente e também tinha representantes do Exército. Um dos representantes do Exército me procurou e disse: ‘Olha, você tem 48 horas para sair do Brasil’”, revela. 

A vida pós-exílio

O ex-presidente aponta que, por mais amena que tivesse sido a vida de alguns no exílio, ainda assim “você leva o choque”. “E quando você está no exílio, você vive o país o tempo todo. Recebe informações, nem sempre verdadeiras, mas recebe informações sem parar: ‘fulano foi torturado, fulano morreu, fulano foi preso’...”.

As pessoas imaginam que vai haver uma guerrilha, vai haver uma revolução. Não vai nada. Vai haver repressão, tortura”, completa. 

Meses depois, após ter voltado ao país, conforme recorda o site Memórias da Ditadura, FHC, que havia se tornado professor de Ciências Políticas na USP, acabou sendo aposentado compulsoriamente como consequência do Ato Institucional Nº 5. 

Fernando Henrique Cardoso durante palestra/ Crédito: Alessandro Carvalho via Wikimedia Commons

“Eu ouvi pelo rádio que eu havia sido aposentado compulsoriamente. Me aposentaram porque achavam que eu era subversivo, me aposentaram como professor catedrático, eu tinha 37 anos”, recorda FHC na produção de Belisário Franca.“E nós fomos proibidos de ensinar no Brasil, sem saber nem porquê”.

A prisão na OBAN

Durante a Ditadura Militar, o serviço de informações do governo produziu um dossiê sobre FHC. No documento, ele era caracterizado como “elemento extremista”. Por conta desse motivo, acabou sendo detido pela Operação Bandeirantes, a OBAN.

Em certa altura, você se lembra que chamaram a todos na OBAN. Eu passei 24 horas e basta viu, não era fácil não. Eles achavam que eu era trotskista, e eu nunca fui, tinha horror a esse negócio. E era tudo assim, pressuposição, não tinha nada concreto”, diz. 

“Mas não houve nada assim comigo, houve com muita gente. Muita gente do Cebrap [Centro Brasileiro de Análise e Planejamento] foi presa e alguns torturados… O governo via todos como se fossem comunistas”, continua. 

“Nós fazíamos resistência sem luta armada. Porque havia o grupo que queria a luta armada. Nunca foi a nossa posição. Nossa posição foi lutar dentro das regras institucionais, para restabelecer a democracia”, completa o ex-presidente. 

Em 1969, FHC, ao lado de outros pesquisadores cassados, fundou a Cebrap, que se tornou um núcleo de pesquisa e reflexão sobre a realidade brasileira. Em 1974, ajudou na elaboração da plataforma eleitoral do Movimento Democrático Brasileiro. 

Fernando Henrique Cardoso também participou da campanha das Diretas Já e da articulação da campanha presidencial de Tancredo Neves em 1984. Reeleito Senador, foi um dos relatores da Constituição de 1988. 

Fernando Henrique Cardoso, Ulysses Guimarães, Bernardo Cabral e Humberto Lucena durante a Assembleia Nacional Constituinte/ Crédito: Senado Federal

Fundador do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) — ao lado de Mário Covas, Franco Montoro, José Serra e outras lideranças —, se tornou ministro das Relações Exteriores em 1992. Em março de 1994, FHC deixou o Ministério da Fazenda para se candidatar à presidência. Eleito no primeiro turno, ainda conquistou o segundo mandato em 1998.


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