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Morre general Newton Cruz, símbolo da ditadura militar, aos 97 anos

Ex-chefe do SNI, ele foi acusado de participação no atentado ao Riocentro e ficou conhecido por repreender repórter

Wallacy Ferrari Publicado em 16/04/2022, às 15h16

General Newton Cruz, que participou ativamente da ditadura militar brasileira
General Newton Cruz, que participou ativamente da ditadura militar brasileira - Wikimedia Commons / Coxinha Man

O general Newton Cruz, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) durante o período da ditadura militar no Brasil, faleceu na manhã deste sábado, 16, aos 97 anos de idade. A informação de seu falecimento foi confirmada por parentes do militar em entrevista ao portal de notícias G1.

Conhecido pela atuação enérgica durante o período de repressão, ele faleceu de causas naturais após ser internado Hospital Central do Exército, em Benfica, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Apesar de apontado pela Comissão da Verdade em 2014 como um dos 377 militares que cometeram crimes na ditadura, ele nunca foi condenado ou preso pelas acusações.

Newton Cruz atuou como chefe do SNI entre os anos de 1977 e 1983, agência que servia como central de espionagem e organização de planos de interesse da então administração militar, sendo diretamente denunciado pela participação na morte do jornalista Alexandre von Baumgarten, que o acusou em dossiê pouco antes de ser assassinado e, em especial, por sua atuação no caso Riocentro.

Riocentro e Newton Cruz

O caso Riocentro aconteceu em 30 de abril de 1981, no bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Naquele dia aconteceram dois atentados, o primeiro deles foi a explosão de um automóvel Puma no qual estavam o sargento Guilherme Pereira do Rosário e o capitão Wilson Machado, que foi o único sobrevivente.

O segundo foi uma bomba detonada dentro da casa de força do Riocentro, que abrigava cerca de 20 mil pessoas em um show que homenageava o Dia do Trabalhador. Os atos pretendiam incriminar grupos de esquerda, o que faria que o processo de abertura política, iniciado no final da década de 1970, fosse interrompido.

Em 2010, Newton confessou em entrevista a GloboNews que não apenas esteve ciente da organização do ataque frustrado, como impediu um outro atentado, que acabou não ocorrendo, temendo outra falha que pudesse apontar o ato militar. Além disso, esclareceu que não tinha a intenção de matar ninguém no evento, sendo apenas um "ato de presença", como classificou.

Repressão a opositores

Liderando o SNI, o general Cruz tornou-se um símbolo da repressão com sua postura firme e enérgica, muitas vezes demonstrada publicamente. Em 1983, protagonizou um dos principais episódios do governo militar contra a liberdade de expressão e imprensa livre ao agredir o jornalista Honório Dantas em entrevista coletiva.

Na época repórter da Rádio Planalto, Cruz se incomodou com as perguntas do entrevistador e foi orientado a se calar, abruptamente. Optou por desligar então o aparelho gravador, sendo empurrado pelo general.

Ao ligar o equipamento e gravar que estava "honrado" em ser hostilizado pela autoridade, Newton Cruz se enfureceu e deu uma chave de braço do radialista, o conduzindo a força ao meio dos colegas de trabalho e obrigando, de maneira vexatória, a se desculpar com os outros jornalistas do local.

Veja abaixo o histórico vídeo: