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“Não tenho medo”, diz 1ª mulher afegã a ser prefeita sobre encontro com Talibã

Zarifa Ghafari se viu obrigada a deixar o país após grupo extremista retomar o poder

Fabio Previdelli Publicado em 18/10/2021, às 11h05

A ativista e ex-prefeita Zarifa Ghafari
A ativista e ex-prefeita Zarifa Ghafari - Domínio Público via Wikimedia Commons

Primeira mulher a ser eleita prefeita no Afeganistão, a ativista Zarifa Ghafari diz que não vê problemas de se reunir e conversar com membros do Talibã, que retomaram o poder do país em agosto deste ano. Porém, Ghafari afirmou que só participaria do encontro caso sua segurança fosse garantida.  

"Queria conhecê-los, porque sei que esses homens não são meros zumbis. (...) Adoraria contar a eles sobre a minha vida, os meus sonhos, os meus pais. Eu não tenho medo", disse Zarifa em entrevista publicada hoje, 18, pela revista Ela, do jornal O Globo.  

A ativista pleiteou uma vaga como prefeita em 2018, quando se candidatou na cidade de Maidan Shar. Ela foi eleita após bater outros 138 candidatos. Todos homens. Após conquistar o cargo, Zarifa foi vítima de diversos protestos de conservadores, que até mesmo chegaram a atacá-la com ácido — o que deixou cicatrizes em seu corpo.  

Seu período como prefeita durou apenas nove meses, quando, em novembro do ano passado, ela renunciou depois que seu pai foi assassinado pelo Talibã

Quando o grupo extremista assumiu o controle do país, Ghafari se viu obrigada a fugir do Afeganistão. Escondida dentro de um carro, ela chegou na Turquia e depois pediu asilo na Alemanha, onde atualmente mora com o marido, a mãe e cinco irmãs.  

“Eles estão batendo de casa em casa, procurando por pessoas ligadas ao governo anterior, ativistas e militares. Também soltaram criminosos, que agora querem se vingar de quem os colocou na cadeia”, disse.  

Atualmente, Zarifa faz palestras ao redor do mundo, onde conta sua história e luta em prol dos direitos humanos.  

"Não podemos vestir roupas bonitas em público, não podemos usar salto alto em público... Tudo é sobre mulheres. Essas pessoas não conseguem pensar em nada além disso? Nós representamos a nossa cultura e a nossa bela religião. Não somos inimigas do Afeganistão nem responsáveis pelo que acontece de ruim no país. Não fomos nós que provocamos a guerra ou disseminamos a corrupção”, conclui.