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Há 220 anos, Napoleão aportava no Egito

Basicamente por propaganda, o futuro imperador invadiu na terra dos faraós. Levaria suvenires

terça 3 julho, 2018
Uma expedição que rendeu muitos suvenires
Uma expedição que rendeu muitos suvenires Foto:Reprodução

"Nós devemos ir para o Oriente. Toda a grande glória reside lá!" A frase, recheada de heroísmo, só poderia ter vindo de Napoleão Bonaparte. Ela foi proferida como um dos argumentos para que o Diretório, o governo francês, autorizasse uma expedição rumo ao Egito. 

Se a frase de Napoleão foi épica, seus pensamentos eram extremamente calculados. Conclamado como o grande vencedor da campanha da Itália em 1796, a estrela do jovem general estava em plena ascensão. Só não tinha força suficiente para dar um golpe de estado. "Ele precisava continuar em evidência, e a expedição ao Egito lhe daria isso", argumenta o professor John Lynn, especialista em história militar da Universidade de Illinois, nos EUA. 

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O Diretório, a despeito dos altos custos da expedição e de seu duvidoso valor estratégico, não hesitou em patrocinar o projeto. "Eles queriam a todo custo manter Napoleão fora da cena política de Paris. E enviá-lo para longe seria a melhor maneira para isso", completa Lynn.

Assim, em março de 1798, sob os argumentos de que a invasão do Egito ameaçaria os interesses britânicos no Oriente, traria ao povo francês uma preciosa colônia e ainda livraria o povo egípcio da opressão dos turcos, Bonaparte iniciou sua inusitada expedição. Em menos de três meses, com sua habitual rapidez, ele montou um exército de 40 mil homens, além de um corpo de cientistas ávidos por dissecar a misteriosa cultura egípcia.

Já no Egito Wikimedia Commons

 O comandante francês alcançou o porto de Alexandria em 1º de julho de 1798. No dia 21, o exército francês chegou às pirâmides de Gizé. Napoleão não perdeu a chance e soltou outra de suas frases célebres: "Soldados! Do topo destas pirâmides, 40 séculos vos contemplam!"

Mas não eram só os séculos que os observavam. Os donos da terra eram os mamelucos - o termo vem do árabe mamluk, "escravo", porque eram escravos que chegaram ao poder através de uma revolta, em 1250. Em 1517, foram vassalizados pelo Império Otomano, mas mantinham o controle regional do governo.

Os mamelucos haviam posicionado 100 mil homens e se preparavam para chutar o invasor. A luta ocorreu nesse mesmo dia. Inferiorizado em números, o general francês dispôs suas tropas em cinco grandes quadrados, com os canhões protegidos no meio. Os mamelucos, que tinham na lendária cavalaria sua grande força, se atiraram sobre os franceses numa carga insana.

Dispondo de armas obsoletas e sem conseguir quebrar os quadrados adversários, os mamelucos perderam 6 mil homens antes de fugir em pânico. Os mortos e feridos franceses não ultrapassaram 300. Em um único dia, o jovem general de 29 anos havia liquidado com 700 anos de domínio mameluco no Egito.

Frota destroçada

Até então, a expedição caminhava sem problemas. Mas logo a maré virou. Dez dias após a vitória na Batalha das Pirâmides, os ingleses, sob o comando do almirante Nelson, destroçaram a frota francesa em Alexandria, na chamada Batalha do Nilo. Foi um golpe mortal. De uma hora para outra, o exército francês ficou isolado e sem o precioso suporte marítimo. Para complicar, os egípcios decidiram mostrar sua ira contra os franceses. "Várias revoltas populares foram suprimidas na ponta da baioneta", aponta o professor Lynn. "Para piorar, um surto de peste dizimou as fileiras napoleônicas."

Mas o general não desistiu de sua campanha no Oriente. Reprimida a revolta, Napoleão seguiu, no início de 1799, com seus soldados mais fortes para fora do Egito. Atacou a província otomana da Síria. E, apesar de bater forças muito superiores, não conseguiu tomar a estratégica cidade de Acre, na Palestina. Acossado pela peste e com falta de suprimentos, o general e suas tropas voltaram ao Egito em maio.

Napoleão e a sua tropa Wikimedia Commons

Na terra dos faraós, tiveram ainda que repelir uma invasão anfíbia feita pelos turcos, com o apoio naval inglês - a disputa ficou conhecida como a Batalha de Aboukir. Em 25 de julho, seus 10 mil homens, exaustos, venceram os 15 mil otomanos de Mustafá Pasha. Inquieto com a situação política francesa e vendo que a campanha egípcia caminhava para o naufrágio, ele embarcou em 22 de agosto para Paris.

Em 1801, o que restava do exército francês foi derrotado por uma força expedicionária inglesa, encerrando a invasão napoleônica. "Exceto pela missão científica e pelo assalto aos tesouros, a aventura no Egito de Napoleão não passou disto: uma aventura", sentencia o professor Lynn.

Egiptomania

A expedição de Napoleão trouxe, além de um enorme desenvolvimento científico, duas consequências inusitadas. A primeira foi a explosão da egiptomania na sociedade francesa. Panos, pratos, sopeiras, xícaras de chá e uma série de objetos cotidianos passaram a ser decorados com motivos egípcios. Mas não só.

"O gosto pelas coisas vindas da terra dos faraós, depois da expedição francesa, alojou-se profundamente tanto no setor artístico quanto no plano espiritual", reflete Ricardo Gonçalves, ex-professor de história das religiões da USP. "A descoberta dos túmulos dos faraós, o deciframento da linguagem dos hieróglifos, o próprio nascimento da egiptologia como ciência impulsionou uma explosão de cultos maçônicos, já que os maçons usavam em seus rituais muitos dos símbolos egípcios."

Napoleão também se animou. Conta-se que uma vez, ainda lá, resolveu se vestir à moda oriental - de turbante e roupão. Usou o aparato apenas um dia. É que seus homens riram tanto que ele nunca mais chegou perto de algo parecido.


Um obelisco em Paris

Um dos aspectos inusitados da expedição egípcia foi a inclusão de um grupo de cientistas. Considerado por alguns políticos como uma devoção de Bonaparte aos princípios do Iluminismo e por outros um ato descarado de propaganda para ocultar os motivos imperialistas da viagem, a missão científica foi o que deu frutos mais sólidos. Ao todo, embarcaram mais de mil civis - artistas, poetas, botanistas, zoologistas, arqueólogos e economistas.

O resultado do trabalho foi suficiente para preencher cerca de 22 volumes, chamados de Descriptions de L·Egypte, uma das obras-mestras da egiptologia até hoje. Entre as estrelas da expedição, estavam o brilhante matemático Gaspard Monge, o químico inventor do grafite para lápis Jacques Conte. E, uma que não é uma pessoa, a Pedra de Rosetta, que seria decifrada duas décadas depois por Jean-François Champollion. 

Reprodução/Connie Ma

Segundo Steven Englund, historiador americano, Napoleão parece Ter realmente se empolgado com a expedição. "Em julho de 1798, foi fundado o Instituto do Egito, no Cairo. Suas reuniões eram a única ocasião em que Bonaparte tolerava críticas a si mesmo", escreve. A atenção dedicada pelo general aos cientistas provocou ironias. "Os soldados referiam-se aos savants ("sábios") como a amante favorita do general", completa Englund.

Os cientistas levaram tudo o que puderam para a França, incluindo um colossal obelisco de 30 m, 246 toneladas e 3,2 mil anos, originário de Luxor, que repousa até hoje na praça da Concórdia, em Paris. "O trabalho que os sábios realizaram no Egito praticamente fundou a ciência da egiptologia e foi o único sucesso de uma aventura controversa", diz Englund.

Fabiano Onça


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