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Nos tempos de Dom Pedro II: o socialismo utópico no Brasil

Na época, idealistas europeus atravessaram o Atlântico rumo ao litoral brasileiro para criar comunidades socialistas. Eram os primeiros modelos de cooperativismo instaurados no país

Diego Antonelli Publicado em 22/08/2020, às 09h00

Representação das antigas sociedades
Representação das antigas sociedades - Robson Vilaba

Após 52 dias a bordo do navio Fides, Jean-Maurice Faivre desembarcou no Porto de Antonina, no litoral do Paraná, prestes a ver seu sonho concretizado. Ele partiu do porto belga de Antuérpia em dezembro de 1846 e chegou ao Brasil com mais 63 franceses, desbravando toda a Serra do Mar a pé e a cavalo.

Ao passar pela cidade de Ponta Grossa, a 120 quilômetros de Curitiba, o grupo abriu caminho pela densa floresta da região e seguiu rumo ao destino: as margens do Rio Ivaí, no norte do estado. Naquele lugar, o médico e filósofo francês Faivre iria colocar em prática a construção de uma comunidade em que a igualdade e a justiça social fossem regras para todos os moradores.

No ano seguinte, em 1847, a colônia Tereza Cristina se transformava, então, em um dos primeiros modelos de cooperativismo do país, inspirado nos ideais socialistas utópicos de Saint Simon, Charles Fourier e Robert Owen. Quando chegaram, os franceses limparam a mata, construíram as primeiras moradias e prepararam o terreno para o plantio de café, baunilha, algodão, milho, trigo e cana-de-açúcar.

Charles Fourier em ilustração / Crédito - Robson Vilaba

 

Os moradores viviam ao lado direito do rio, que atualmente pertence ao município de Cândido de Abreu. Do lado esquerdo, onde hoje é Prudentópolis, faziam suas plantações. Faivre escreveu normas para disciplinar o uso da terra, que era coletivo, e a convivência entre os moradores.

Porém, uma parte de seus conterrâneos não se adaptou ao sistema e abandonou a comunidade já em 1848 – o que não impediu Faivre de seguir firme na sua proposta
de implantar uma sociedade igualitária, sem espaço para escravidão e individualismo. Quatro décadas antes de a Lei Áurea ser publicada, em 1888, o médico francês entrou em acordo com a corte imperial para que a escravidão não vigorasse dentro da colônia.

Assim, Tereza Cristina foi o primeiro local dentro do território brasileiro a extinguir o regime escravocrata. O espírito de união na comunidade era visto até nos pequenos gestos, como o macacão de trabalho, por exemplo, que tinha de ser abotoado pelas costas.

“Segundo Faivre, isso era para todos aprenderem a buscar ajuda um do outro. Com certeza é mais fácil abotoar pela frente, mas, nas regras de Faivre, para construir a ideia do coletivo, você precisaria contar com o outro”, descreve o pesquisador e professor da Universidade Federal do Maranhão, John Kennedy Ferreira, que defendeu doutorado sobre socialismo utópico na Universidade de São Paulo (USP).

Por 11 anos, o médico francês liderou, na prática, uma comunidade utópica cuja existência terminou com sua morte, em agosto de 1858, aos 63 anos de idade. Sem Faivre, os colonizadores utópicos ainda tentaram resistir, porém, o sonho de cada um naufragou nos anos seguintes.

Essa não foi a primeira, mas uma das três principais experiências derivadas do socialismo utópico – que viu, no Brasil, um berço para tentar prosperar. Além dela, o país deu origem aos Falanstérios de Saí e de Palmital, no estado de Santa Catarina, em 1841, e à Colônia Cecília, em 1890, na cidade de Palmeira, também no Paraná.

Apoio imperial 

Pelo menos duas dessas comunidades alternativas – Tereza Cristina e Falanstérios – tiveram como ponto comum a proximidade com o Império brasileiro. Ambas só foram viáveis por causa da ajuda do poder vigente. Faivre, por exemplo, realizou o primeiro parto da esposa do imperador dom Pedro II, Tereza Cristina, e logo se tornou médico de confiança da imperatriz.

Dom Pedro II em pintura oficial /Crédito - Wikimedia Commons

 

Com a ajuda de 20 contos de réis do casal imperial, ele foi à França para convencer 25 famílias (63 pessoas) e dar início à saga da colônia – uma contribuição fundamental para o sonho do médico francês se tornar real. Não por acaso, a colônia foi batizada em homenagem à imperatriz.

E, como já era de se esperar, a história dos Falanstérios catarinenses não foi muito diferente. Inspirado nas ideias do socialismo utópico, o médico francês Jean Benoit Mure convenceu a conservadora corte brasileira a lhe dar estrutura para a construção de um falanstério na região catarinense de Saí (atual cidade de São Francisco do Sul), em 1841: essa, sim, a primeira comunidade utópica a ser construída no Brasil.

O Falanstério de Saí foi uma colônia agrícola industrial baseada nas ‘falanges’ idealizadas por Fourier. Teoricamente, essas falanges seriam pequenas unidades sociais que abrigariam cerca de 1500 habitantes. Cada unidade teria um edifício comum chamado Falanstério, no qual todos viveriam harmoniosamente, conforme explica o pesquisador José D’Assunção Barros, professor doutor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

“Havia muitos espaços de socialização no Falanstério, inclusive para as refeições, sempre coletivas”, diz. Com isso, o socialista francês queria implantar um sistema que minimizasse a desigualdade social, mesmo admitindo que pudesse haver pequenas diferenças entre os habitantes, e criar uma dimensão de prazer no trabalho desempenhado por cada um, além de ser útil a todos da comunidade.

No Brasil, as terras, doadas pelo governo imperial logo após Mure trazer mais de 200 pessoas da França para consolidar a ideia, foram essenciais para a viabilização do falanstério catarinense, que resistiu no país até meados de 1844. Estima-se, segundo o professor de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Santa Catarina, Hoyêdo Nunes Lins, que, entre o final de 1841 e o início de 1844, cerca de 500 colonos deixaram a França para participar da experiência do projeto brasileiro.

Nessa época, de acordo com Ferreira, o olhar em busca de uma sociedade mais igualitária já mirava os países do Novo Mundo. “A concessão de terras em Santa Catarina, pela administração imperial, resulta em júbilo para o doutor Mure, que se encantou com a localização e o clima”, afirma a historiadora e pesquisadora Adelaide Gonçalves, professora da Universidade Federal do Ceará. Ela ainda conta que, no ano de estreia da empreitada, a Câmara dos Deputados aprovou um empréstimo de 64 contos de réis, oriundos do Império, especialmente para apoiar a colonização utópica socialista.

Projeto dividido 

Nesse mesmo período, os parceiros de Mure, Michel Derrion e Joseph Reynier, faziam propaganda do socialismo no Brasil e recrutavam os futuros colonos na França. Um grupo de 110 pessoas – entre homens, mulheres e crianças –, às vésperas de partir do porto de Havre rumo ao litoral catarinense, foi prestar uma homenagem a Fourier, que estava enterrado no cemitério de Montmartre.

Pouco depois, houve divergências entre Mure e Derrion, que acabou fundando um outro falanstério, em Palmital (atual Vila da Glória, também em São Francisco do Sul). Com o passar do tempo, as adversidades começaram a pesar para as duas colônias.

“Entre elas, estão a utilização de mão de obra local, que trazia novos problemas de relacionamento para a comunidade, e a própria localização, tendo os utopistas franceses de lutar para sobreviver no meio da Mata Atlântica, cujas condições eram difíceis e desconhecidas para eles – uma situação, aliás, agravada pelo fato de serem, na sua totalidade, operários e artistas provindos do mundo urbano”, explica Adelaide em artigo científico publicado pela Universidade do Porto.

Apesar do apoio do governo imperial, o “Paraíso na Terra”, como defendia Fourier, não conseguiu prosperar nas colônias dos Falanstérios catarinenses e nem na Tereza Cristina. “Acreditava- se que, com o amparo benevolente do imperador, o Brasil seria o primeiro país onde se veria a concepção falansteriana de Fourier”, afirma o professor da USP Adalmir Leonidio.

No entanto, por mais que pareça contraditório construir uma comunidade socialista com a ajuda do governo, essa prática não era incomum na época. Segundo Ferreira, o socialismo utópico era uma espécie de clube ou um movimento fundado por pessoas de famílias abastadas, geralmente nobres ou burguesas, que se opunham ao capitalismo, devido aos males sociais e egocêntricos que o sistema gerava – sobretudo a escravidão no Brasil.

“As divergências entre os socialistas poderiam ser superadas se os governantes respeitassem o seu dogma. Por isso, buscavam a parceria com o Império”, diz. Inclusive, era essa a realidade social que diferenciava as tentativas de levar adiante as iniciativas utópicas no Brasil e na Europa. Em meados dos anos 1850, o Brasil era um país recém-independente e calcado no regime escravo. Enquanto isso, a Europa vivia o início da segunda Revolução Industrial, com uma mentalidade social mais progressista e uma sociedade já dividida entre burgueses e trabalhadores livres.

“Os ideais utópicos tinham, na Europa, uma dimensão republicana muito importante. Já, aqui, o expurgo dos ideais republicanos está em consonância com nosso contexto patriarcal, rural e escravista da época”, salienta Leonidio. E reforça que, quando o conceito do socialismo utópico começou a ser propagado no Brasil, não havia indústrias e nem trabalho livre no país.

Movimento burguês

Ainda durante o século 18, mais especificamente na Inglaterra e na França, as sociedades burguesas – com a promessa de ‘liberdade, igualdade e fraternidade’ a todos – estavam se consolidando. Todavia, essa promessa estava longe de chegar aos segmentos mais pobres da população. Esse ponto foi fundamental para fortalecer o socialismo utópico. “A França chegou a ter mais de 10 mil colônias e um número superior a 100 mil militantes das causas utópicas. Na Inglaterra, as cooperativas autogeridas cresciam em
larga escala. A ideia socialista era vista como uma alternativa ao descaso, a fome, a miséria e ao abandono”, explica Ferreira.

Mas, no século seguinte, com o avanço do capitalismo na Europa e da presença de mais trabalhadores livres, surgiram alternativas para eles se organizarem, como a fundação (e o fortalecimento) de sindicatos e outras associações. “A ideia de construir falanstérios e outras colônias perdeu, assim, o poder de atração naquele contexto europeu.” Era preciso buscar novos portos para que o sonho da utopia virasse realidade.

A partir de então, o Brasil passou a ser visto pelos entusiastas do ideal utópico como um local propício para que experiências do gênero prosperassem. Afinal, era uma nação nova e ainda em processo de construção. “Os principais líderes do socialismo utópico perceberam a necessidade de novos ares, compreenderam que a Europa estava perdida e a pureza de uma nova sociedade teria mais chances de êxito num novo local e, portanto, vários de seus líderes migraram para os países do Novo Mundo.”

Como, por exemplo, o italiano Giovanni Rossi, que migrou no final do século 19 para a América do Sul para tentar colocar a chamada “utopia anarquista” em prática. Ao embarcar no porto de Gênova, na Itália, em fevereiro de 1890, Rossi já tinha o plano traçado há mais de uma década – 12 anos antes, o agrônomo e médico veterinário já tinha produzido a primeira edição do livro Uma Comuna Socialista, idealizando a criação de uma comunidade nos moldes do anarquismo.

Ele e outros cinco companheiros embarcaram com a missão de transformar a utopia em realidade. A colônia experimental anarquista seria instalada no Uruguai, mas a longa viagem pelo Oceano Atlântico afetou dois membros do grupo, que passaram mal pelo balanço do mar, obrigando-os a mudar os planos.

No fim, desembarcaram no Paraná em março daquele ano, numa época em que o cenário político do Brasil estava bem agitado: em novembro do ano anterior, o Império havia sido substituído pelo regime republicano e, dois anos antes, ocorrera a abolição da escravatura.

Ao chegarem à capital, Curitiba, o grupo italiano procurou a Inspetoria de Terras e Colonização e, com recursos da Europa, adquiriram um pedaço de terra na cidade de Palmeira, na região dos Campos Gerais do estado. No dia 2 de abril de 1890, Rossi declarou oficialmente a formação da Colônia Socialista Cecília, que existiu até 1894.

Ao instalar o seu próprio “novo mundo” em uma pequena cidade do interior do Paraná, o italiano desafiou, numa tacada só, a Igreja, a família e o Estado. Isso porque os membros da colônia eram ateus, as datas religiosas ignoradas e as propriedades privadas totalmente negadas – tudo era de todos. O italiano também defendia o amor livre, experiência que ele viveu entre 1892 e 1893, quando dividiu a mesma mulher com outro morador da colônia.

Cecília começou em 1890 com apenas seis pessoas. No ano seguinte, mais de 200 imigrantes desembarcaram em Palmeira. Porém, a falta de estrutura do lugar gerou sérios conflitos e a situação piorou quando um grupo da própria colônia roubou o dinheiro mantido no caixa comum e fugiu – qualquer membro tinha acesso ao dinheiro mantido no local.

Todo esse cenário foi determinante para que, em 1892, a população fosse reduzida a 64 habitantes, até Cecília ser extinta dois anos depois. O fundador sabia que seu laboratório social apresentava dificuldades. A miséria dos colonos, os conflitos gerados pela distribuição de trabalho e o ciúme causado pelo amor livre desgastavam a sobrevivência de Cecília.

Tanto que um ano antes, em 1893, ele mesmo já havia despertado de seu sonho. Partiu para Curitiba e depois rumou para Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde colaborou com a criação das primeiras cooperativas agrícolas do país. Rossi jamais deixou de lado a convicção de que era possível estabelecer, aos poucos, um novo estilo de vida, em que a igualdade e a justiça prevalecessem.

O legado da utopia

As experiências de colônias utópicas mais significativas que o Brasil assistiu – do ponto de vista histórico – não tiveram um futuro longevo. Os Falanstérios de Santa Catarina, Tereza Cristina e Cecília sumiram do mapa em razão, especialmente, das dificuldades de convívio entre os membros e a inviabilidade econômica. Além disso, o próprio contexto do Brasil do século 19 prejudicou.

“A apologia da ordem rural e escravista foi o veneno que possivelmente contaminou, em seu nascimento, a ideia de construir comunidades utópicas no Brasil”, explica Leonidio. A contaminação foi tanta, na visão do pesquisador, que até mesmo pessoas que, em nenhuma hipótese poderiam se chamar de socialistas, aderiram à ideia de formar supostos falanstérios.

Este foi o caso, por exemplo, do senador Nicolau Vergueiro de Campos, que tentou fundar uma comunidade em 1845 com o nome de Sociedade Família Industrial, em São Paulo. “De acordo com o disposto nos artigos do decreto sobre sua fundação, ela tinha a natureza de uma associação para produção e comércio, muito mais do que de uma comunidade de bens.” Por outro lado, o legado dessas iniciativas ficou.

A ideia do Falanstério pode ter uma lição importante para o mundo atual, particularmente no contexto da crise ecológica e do trabalho em que estamos submetidos. Não à toa, um dos pontos que Fourier mais defendeu ao longo da vida é de que o trabalho deveria ser fonte de realização e de prazer, e não meramente da produção de mais valor.