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Mulheres escreviam textos sagrados na Idade Média, mostra estudo

A descoberta inédita pode mudar o que sabemos sobre os manuscritos religiosos medievais

Alana Sousa Publicado em 10/01/2019, às 14h50 - Atualizado às 16h30

A descoberta inédita muda o que sabíamos sobre os escribas medievais
A descoberta inédita muda o que sabíamos sobre os escribas medievais - Getty Images

Arqueólogos descobriram o que pode ser o primeiro registro de uma mulher escriba na História. A descoberta contesta o conhecimento de que os escribas medievais eram apenas do sexo masculino, principalmente aqueles que trabalhavam para locais mais qualificados. A escriba vivia na Alemanha medieval, por volta de 997 a 1162 e foi enterrada em um mosteiro de mulheres em Dalheim, na Alemanha.

O estudo foi conduzido por Anita Radini e Christina Warinner, da Universidade de Nova York, enquanto as arqueólogas examinavam os restos mortais encontrados em um cemitério medieval ligado a um mosteiro de mulheres na Alemanha, se depararam com um pigmento azul presente em uma arcada dentária de um esqueleto feminino. A ossada da mulher indicava que ela tinha entre 45 e 60 anos quando morreu, e a única coisa incomum encontrada na análise era a cor azulada que não parecia natural.

A arcada dentária cujo tártaro foi analisado Reprodução

A busca por alguém que pudesse explicar o que o azul nos dentes significava foi difícil, segundo as arqueólogas, grande parte dos historiadores contatados não sabia o que tinha acontecido. Até que elas finalmente encontraram físicos da Universidade de York que ajudaram a confirmar que o azul realmente veio da lazurita mineral, derivada de lápis lazúli.

Lápis Lazúli e suas formas, como pedra, pó e tinta Reprodução

O pigmento de lápis lazúli só poderia ter vindo de uma única região do Afeganistão. Era muito utilizado para escrever textos e colorir ilustrações em manuscritos religiosos em livros de alta qualidade na Idade Média. Por ser um produto com o custo bastante alto, apenas os melhores profissionais podiam realizar a tarefa.

Sobre os restos do material encontrados nos dentes da escriba, a equipe concluiu que dois cenários são mais prováveis: a mulher, enquanto pintava, poderia ter ingerido tinta ultramarina enquanto lambia seu pincel até deixá-lo em um ponto específico, ou ela respirava o pó enquanto preparava o pigmento para si ou para outra pessoa. Os especialistas enfatizaram que a descoberta "marca as primeiras evidências diretas para o uso desse pigmento raro e caro por uma mulher religiosa na Alemanha".

A descoberta de que uma mulher era responsável por tal ação é realmente inédita e muda a concepção de que as mulheres não ocupavam cargos de tamanha importância no período. O fato de ter sido descoberto após uma análise dentária de um tártaro de mil anos mostra uma possibilidade de obter conhecimento sobre a profissão e tarefas cotidianas de séculos passados, abrindo uma nova porta na arqueologia.