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Soldado napoleônico que sofreu uma morte brutal tem sua face reconstruída

Na Rússia, ele teve sua face destruída por um golpe de sabre – visível na caveira. 207 anos depois, ele a tem de volta

Alana Sousa Publicado em 29/01/2019, às 16h30

O crânio mostra a mandíbula golpeada do soldado francês.
Wiley Publishing

Um estudo que tem como seus autores Dany Coutinho Nogueira, estudante de doutorado em antropologia biológica na Universidade de Pesquisa Paris Sciences et Lettres, buscou através de uma reconstrução facial digital recompor o rosto de um soldado francês do exército de Napoleão, ferido durante uma batalha com a Rússia há mais de 200 anos. O soldado ainda agonizou por algumas semanas, morrendo das consequências do ataque, e foi enterrado em um cemitério em massa no que era então Königsberg, na Prússia Oriental, hoje conhecido como Kaliningrado, na Rússia.

O corpo do jovem soldado foi encontrado em 2006, quando, em uma escavação feita por um grupo de pesquisadores russos, foi revelado um poço que continha 26 esqueletos. Dentre eles, o do soldado analisado por Coutinho Nogueira. Não se sabe muito sobre a vida do soldado francês, mas os arqueólogos especulam que ele tinha entre 24 e 27 anos quando morreu, no final de 1812.

A ideia de reconstruir o rosto do soldado, Coutinho Nogueira conta à AH, veio após muitas horas gastas virtualmente tratando a ferida: “Criamos uma ligação pessoal com o paciente. Quando você passa muitas horas estudando um indivíduo, você necessariamente acaba se apegando a ele”. Coutinho prefere se referir ao estudo como uma aproximação fácil, por ter que supor a cor dos olhos e do cabelo pelas representações mais comuns da França naquela época. “Essa reconstrução facial, mesmo que não corresponda inteiramente à realidade, permitiu que focássemos nossa empatia em um rosto”.

Quanto à escolha do indivíduo que seria o objeto da análise, o estudioso atribui à oportunidade. O trauma sofrido pelo soldado era de enorme gravidade.

Reconstrução facial do soldado Wiley Publishing

O golpe quase fatal que o soldado sofreu foi de uma espada de sabre, que possui sua ponta um pouco mais curvada, permitindo que ele sobrevivesse na hora ao ataque, morrendo entre seis semanas e três meses depois. A causa de morte foi possivelmente co-mórbida - surtos epidêmicos de tifo e febre de trincheira, que ocorreram em Königsberg no final de 1812 e início de 1813. Coutinho conta que o homem sofreu muito: “morreu longe de sua família e nunca mais voltou para casa. Depois do golpe, ele teve problemas para comer e falar”.

“O fato de o soldado ter sobrevivido por cerca de dois meses apesar dessa lesão também mostra que os cuidados, o tratamento e a atenção aos feridos continuaram durante o retiro, apesar das condições terríveis”, acrescenta o autor.

Sobre a importância do estudo, Coutinho conta que ele mostra o quanto podemos aprender com os métodos 3D. Desde entender a ferida, suas consequências e até seu tratamento. “Este indivíduo nos traz informações sobre os cuidados prestados aos soldados feridos. O fato de que alguns fragmentos ósseos foram encontrados no local apesar da violência do impacto mostra que um procedimento cirúrgico foi aplicado rapidamente após a lesão”, finaliza Dany Coutinho Nogueira.