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Novo estudo com DNA medieval sugere que Colombo não trouxe sífilis para Europa

“Ou Colombo trouxe um buquê inteiro de variedades [de cepas da doença] ou essa diversidade estava presente lá antes”, afirma pesquisador

Isabela Barreiros Publicado em 13/08/2020, às 14h28

Um dos crânios analisados na pesquisa
Um dos crânios analisados na pesquisa - Divulgação/Finnish Heritage Agency

Durante muito tempo, pesquisadores atribuíram a epidemia de sífilis, que aconteceu no final dos anos 1400, na Europa, à volta da tripulação de Cristóvão Colombo das Américas. Neste novo estudo realizado pela Universidade de Zurique e publicado na revista científica Current Biology, especialistas analisaram DNA medieval e chegaram a outra conclusão.

A equipe de cientistas agrupou nove esqueletos que foram encontrados em cinco sítios arqueológicos diferentes espalhados pela Finlândia, Estônia e Holanda. Os ossos eram de pessoas que estavam com suspeita de sífilis e foram transformados em pó para que pudessem ser examinados à fundo.

O resultado foi surpreendente: eles descobriram uma variedade de cepas de sífilis que não era conhecida anteriormente, algumas até anteriores à chegada de Colombo. “Vemos que muitas linhagens diferentes estiveram presentes na Europa, que não conhecíamos antes”, explicou Verena Schuenemann, coautora do artigo e paleogeneticista na Universidade de Zurique.

Duas das cepas analisadas possuem um intervalo de datas que começa no início dos anos 1400, o que a tornaria a primeira evidência para contestar a tese de Colombo, visto que isso é anterior a sua chegada no continente.

Os pesquisadores observaram que não apenas a infecção sexualmente transmissível estava sendo espalhada na Europa, mas também a bouba. Segundo Schuenemann “nossos dados indicam que a bouba se espalhou por toda a Europa. Não se limitou aos trópicos, como é hoje”.

Para Johannes Krause, arqueogeneticista e coautor da pesquisa, “ou Colombo trouxe um buquê inteiro de variedades ou essa diversidade estava presente lá antes”. De acordo com o que escreveram na tese, o mais provável é que, de fato, a doença estivesse na Europa décadas antes da viagem do explorador.

Ainda assim, o resultado gerou questionamentos entre o meio acadêmico. “É muito interessante e muito importante que eles tenham essas cepas de sífilis nessa época. Tenho menos certeza sobre a escala de tempo exata das amostras”, disse o epidemiologista evolucionário Edward Holmes, da University of Sydney.

Molly Zuckerman, bioarqueóloga da Universidade Estadual do Mississippi, também indaga sobre os amplos intervalos das datas das amostras utilizadas para a análise. Para a especialista, o novo estudo ainda não refuta totalmente a possibilidade de que Colombo teria trazido sífilis para a Europa.