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O homem que passou quase 40 anos injustamente na cadeia

Caso de Walter Forbes chamou a atenção quando ele finalmente foi solto, em novembro de 2020

Isabela Barreiros, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 19/09/2021, às 08h00

Walter Forbes finalmente livre no ano passado
Walter Forbes finalmente livre no ano passado - Divulgação

Muitos crimes demoram anos, décadas e até séculos para serem resolvidos. Algumas pessoas são presas injustamente e soltas, outras nunca são detidas pelos crimes que cometeram e inúmeras passam as vidas em celas sem delitos em suas contas.

Um caso chamou a atenção nos Estados Unidos no ano passado depois de um homem passar quase 40 anos na prisão sem ter sido responsável pelo crime que o mantinha longe da sociedade. 

E embora a maioria das transgressões que cause confusão tenha uma solução complicada, a verdade é que o incidente envolvendo Walter Forbes não era tão complexo assim para demorar 38 anos para ser resolvido.

Foi isso que avaliou o advogado de defesa de Forbes, Imran Syed, quando conseguiu tirar o cliente da prisão em 20 de novembro de 2020, após quase 40 anos em diferentes cárceres nos Estados Unidos. 

"Não é tão complicado. Não é um caso de DNA. Não é um caso de ciência forense. É bastante simples", lamentou Syed na época, repercutido pelo portal UOL. "É muito triste que tenha demorado 38 anos”.

Entenda o caso

Em 1982, Walter Forbes foi condenado quando ainda era um estudante em Michigan, nos Estados Unidos. Ele acabou se intrometendo em uma briga generalizada que estava acontecendo do lado de fora de um bar, o que não agradou uma das pessoas envolvidas.

Dennis Hall era um dos homens na briga e, como retaliação, disparou contra Forbes no dia seguinte. No entanto, Hall apareceu morto em sua casa depois de um incêndio que aconteceu pouco tempo após o episódio da briga, conforme a CNN. 

Como era de se esperar, a culpa do incêndio caiu em Walter, que afirmou na época que só ficou sabendo da morte do outro porque a notícia foi falada na rádio local; não apenas pela relação com o indivíduo, mas também porque uma testemunha apareceu.

Documentos judiciais mostram que, no testemunho, a jovem Annice Kennebrew disse que o viu junto com outros dois homens e botijões de gasolina vermelhos próximos ao edifício que Hall vivia e alvo do incêndio. Ela também descreveu os sujeitos derramando gasolina no exterior do prédio. 

Com os relatos, que vieram à tona três meses depois do incêndio, os investigadores logo foram procurar as evidências no local, mas o que eles encontraram estava um pouco destoante da história de Kennebrew.

Em vez de botijões de gasolina vermelhos, eles se depararam com botijões azuis; outra diferença foi que as evidências de carbonização foram vistas apenas no interior do edifício, não no exterior, como a jovem relatou. 

Ainda que essas discordâncias sejam importantes em uma investigação, elas foram ignoradas. Os outros dois homens não foram condenados pelo crime; um deles teve as acusações recusadas no polígrafo e o outro foi absolvido.

Luz no fim do túnel

Somente Forbes foi condenado — e à prisão perpétua.

O caso apenas começou a ver mudança em 2010, quando ele já estava preso há 28 anos e pôde recorrer ao Michigan Innocence Clinic, escritório que contava com advogados e estudantes da Universidade de Michigan.

"Precisávamos de duas coisas: falar com a testemunha e ver qual era sua história. Também sabíamos que havia um outro suspeito desde o início neste caso", afirmou Imran Syed, advogado de Forbes à CNN.

O suspeito era o dono do prédio, David Jones, que recebeu o seguro dois meses depois do incêndio. Além disso, havia outra testemunha que afirmou que o mesmo homem a deu mil dólares para atear fogo no edifício. Ele também foi acusado de envolvimento em um esquema de fraude em um incêndio criminoso em 1990. 

Em relação à Kennebrew, os advogados de defesa conseguiram contatá-la e descobrir sua verdadeira história. Em 2017, ela revelou em uma declaração juramentada que foi ameaçada para mentir e incriminar Forbes pelo crime, tendo apenas 19 anos na época.

"Dois homens ameaçaram matar meus filhos, pais e irmãos se eu não denunciasse à polícia e testemunhasse no julgamento. Eu tinha que falar que vi Walter Forbes e os outros dois homens atearem fogo", afirmou Kennebrew.

Pura invenção

"Tudo o que eu disse à polícia e tudo o que testemunhei no julgamento em relação ao meu testemunho do início do incêndio foi uma invenção. Pelo que eu sei, Forbes não teve nada a ver com este crime”, completou.

Ainda com a revelação que colocava fim ao caso e à prisão injusta de Walter, levou tempo para que a Justiça aceitasse o depoimento e colocasse fim ao cárcere.

O caso foi encerrado e Forbes foi solto em 20 de novembro de 2020. Ele contou que continuará seu trabalho com grupos de reforma prisional, que começou quando foi preso.


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