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Os registros de alunos 'rebeldes' do Egito Antigo

Peças de cerâmica revelaram detalhes sobre a rotina de punição de estudantes indisciplinados que viveram há 2 mil anos em Athribis

Isabela Barreiros Publicado em 27/02/2022, às 08h00

Peça de cerâmica encontrada em Athribis, no Egito
Peça de cerâmica encontrada em Athribis, no Egito - Divulgação/Athibis-Project Tübingen

O antigo assentamento de Athribis, situado nas proximidades da atual cidade de Sohag, na margem oeste do Nilo, no Egito, vem sendo objeto de escavações arqueológicas há mais de um século, revelando descobertas importantes para a história da região.

Em 2003, pesquisadores da Universidade de Tübingen, na Alemanha, e do Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito iniciaram o Projeto Athribis, escavando o local que abriga um templo construído pelo faraó Ptolomeu XII, que depois foi decorado por inúmeros imperadores romanos.

O templo pode ser visitado por curiosos pela cultura egípcia, mas o sítio arqueológico, composto por vestígios de uma necrópole, pedreiras e um assentamento humano, continua sendo estudado e investigado por estudiosos da área, que se deparam com artefatos impressionantes no local a cada nova escavação.

A mais recente delas, divulgada no começo de fevereiro deste ano, surpreendeu por se tratar de um grande número de peças de cerâmicas que poderiam dar informações importantes sobre um aspecto muitas vezes não tão conhecido sobre a vida na região.

Alunos rebeldes do Egito Antigo

Um dos artefatos analisados pelos pesquisadores, que contém o desenho de uma criança  / Crédito: Divulgação/Athibis-Project Tübingen

Como noticiou a CNN Internacional em 10 de fevereiro, foram encontradas mais de 18 mil peças de cerâmica que datam de 2 mil anos atrás no sítio arqueológico, contendo inscrições curiosas que revelam detalhes sobre a rotina de estudantes do Egito Antigo.

Mais especificamente de alunos rebeldes, que provavelmente tiveram que escrever todas aquelas linhas como punição pelo mal comportamento apresentado durante seu período em uma escola que existiu na região no passado.

Descobertos no assentamento a cerca de 200 quilômetros ao norte de Luxor, os artefatos, conhecidos como “óstracas”, foram marcados com tinta por meio de canas ou varetas ocas. Os restos de jarros ou vasos eram usados como material de escrita naquela época.

Segundo o professor da Universidade de Tübingen, Christian Leitz, líder das escavações feitas em parceria com uma equipe do Ministério de Turismo e Antiguidades do Egito, é "muito raro encontrar um volume tão grande" de óstracos em apenas um único lugar. 

Peça de cerâmica que apresenta mesma inscrição na frente e no verso / Crédito: Divulgação/Athibis-Project Tübingen

Essa foi somente a segunda vez que uma quantidade tão grande — e semelhante — de itens desse tipo foi encontrada; a primeira vez aconteceu nas proximidades do Vale dos Reis, em Luxor, no Egito. 

Os “alunos desobedientes” estariam sendo obrigados a escrever repetidamente símbolos na frente e no verso da peça de cerâmica. Entre os desenhos analisados pelos arqueólogos, estavam o de uma criança de três formas humanas, deuses antigos, figuras geométricas e animais como escorpiões e andorinhas.

Além dos surpreendentes óstracos, os pesquisadores também encontraram itens notáveis como recibos, textos escolares, informações comerciais e listas de nomes durante as escavações realizadas perto da antiga escola.

"Existem listas de meses, números, problemas de aritmética, exercícios de gramática e um 'alfabeto de pássaro' — cada letra recebeu um pássaro cujo nome começou com essa letra", explicou Christian Leitz em nota à imprensa.