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Padres que molestavam crianças surdas e mudas são condenados na Argentina

Os sacerdotes da Igreja Católica Nicola Corradi e Horacio Corbacho foram sentenciados a 42 e 45 anos de prisão

Fabio Previdelli Publicado em 02/12/2019, às 13h33

Instituto Próvolo
Instituto Próvolo - Divulgação

Dois padres da Igreja Católica foram condenados pela justiça argentina por abusarem sexualmente de estudantes do Instituto Próvolo — entidade religiosa que cuida de menores de idade surdos e mudos — localizado na cidade de Mendoza, no oeste da Argentina.

Os sacerdotes Nicola Corradi (83 anos) e Horacio Corbacho (59 anos) foram sentenciados a 42 e 45 anos de prisão, respectivamente. A decisão foi comemorada pelas vítimas e seus familiares, que chegaram a chorar e se abraçar ao ouvirem o veredito.

Entenda o caso

Nicola Corrardi já vinha sendo investigado há tempos pela justiça italiana por acusações de estupro que cometeu nos anos 60. Na época, ele trabalhava no Instituto Próvolo de Verona, na Itália, e, ao invés de ser punido pela Igreja ou entregue às autoridades, acabou sendo enviado para a Argentina como uma forma de escondê-lo e de abafar o caso.

No entanto, Nicola continuou cometendo os mesmos crimes. Desta vez, o eclesiástico contava com a ajuda de Horacio, de algumas freiras e do jardineiro Armando Gómez, que também acabou sendo condenado a 18 anos de reclusão por agressão sexual.

As primeiras acusações vieram à tona em 2015, quando uma associação de Washington — que trata de vítimas de padres abusadores — tentava descobrir o paradeiro de Corradi. Entretanto, alguns dos familiares relatam que um ano antes enviaram uma carta alertando o papa Francisco sobre os abusos que o padre cometia, mas o pontífice nunca as respondeu.

Perfil das vítimas

As vítimas tinham entre 5 e 17 anos quando foram molestadas. A demora nas denúncias aconteceu muito por conta da deficiência auditiva e de fala das crianças e, principalmente, por todo o trauma que elas sofreram.

Por conta disso, a sensação de impotência era plena. Relatos dão conta de que os abusos aconteciam a noite, quando os padres entravam de surpresa nos quartos e estupravam as vítimas indefesas. Muitas vezes, as crianças eram levadas de dupla para praticarem sexo oral em Corradi.

Uma das acusações mais chocantes ouvida nos quase quatro meses de julgamento foi do estupro de uma garota que usava fralda depois de ser violentada como uma forma de parar com os sangramentos.

A dupla selecionava a dedo seus alvos, segundo o promotor Gustavo Stroppiana, eles tinham preferência pelos estudantes mais submissos e vulneráveis.  "Eles ameaçavam expulsá-los se falassem. É preciso levar em conta que muitas dessas crianças vinham de bairros miseráveis, a instituição era como um hotel de luxo para elas. Eles lhes diziam que suas famílias teriam muitos problemas se dissessem alguma coisa. Quando elas saíram, conviveram com o medo e a vergonha”.

O caso do Instituto Próvolo é um dos maiores escândalos de pedofilia clériga da Argentina. Desde então, 12 padres já foram condenados e o Instituto encerrou suas atividades em 2017. Este foi o primeiro julgamento dos inúmeros processos do caso. No próximo anos está programado o início de novos julgamentos e mais pessoas podem ser indiciadas.