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Arqueólogos apresentam provas de que uma mulher foi papa

Joana teria reinado entre 856 e 858 d.C. - até ter dado à luz. Até agora, tinha-se certeza de que isso nunca aconteceu

terça 11 setembro, 2018
Uma das muitas faces da papisa
Uma das muitas faces da papisa Foto:Reprodução

A história aparece na crônica de vários autores medievais. Disfarçada de homem, ela conseguiu subir na hierarquia católica e ser eleita papa. As datas são precisas: reinou entre 855 e 857, como João (Iohanes, em latim) VIII, conhecido também por Iohannes Anglicus. 

Um dia, enquanto liderava uma procissão na cidade, a verdade veio à tona. O papa João sentiu-se mal. Teve de parar tudo. E deu à luz no meio da rua. Causando indignação, foi aprisionada e, os relatos divergem, pode ou não ter sido executada. Seja como for, ela teve seu nome removido de todos os documentos da Igreja. Oficialmente, o papa João VIII foi o que reinou entre 872–882. Pela lista oficial, Leão IV teria reinado até 855, sucedido por Bento III, que foi até 858. 

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Essa história foi muito comentada na Idade Média, quando era vista como real. Hoje, a maioria dos historiadores acredita ser pura lenda. A primeira menção à papisa é de mais de 300 anos depois, no início do século 13, pelo dominicano Jean de Mailly. Ele não deu o nome oficial do papa mulher e situou a história em 1099. Foram cronistas posteriores que trouxeram os detalhes.

Representação da papisa Joana, datada de 1473 Reprodução

Pesquisadores da Universidade Flinders, na Austrália, acreditam ter encontrado a primeira prova de que a história era real: moedas feitas em homenagem à papisa. 

Segundo Michael E. Habicht, autor de Päpstin Johanna Ein vertuschtes Pontifikat einer Frau oder eine fiktive Legende? (“Papisa Joana: O Pontificado Encoberto de uma Mulher ou uma Lenda ?”), onde revela o resultado de sua pesquisa, as peças são uma forte evidência de que a papisa Joana realmente existiu.

Os especialistas acreditam que elas fazem parte de uma séries de moedas francas, feitas de prata, que traziam imagens de papas e imperadores.

As moedas estudadas trazem, de um lado, o nome do imperador Luis II. Do outro, um monograma complexo que representa o nome IoHANIs – segundo os pesquisadores, ele só pode ser lido como Iohannes. O monograma teria sido baseado na assinatura do papa representado.

À esquerda, monograma de Iohannes. À direita, o nome do imperador Luis II Michael E. Habicht

A análise do estilo e do design das inscrições apontam que a moeda data dos anos 850 d.C. - em cheio com o reinado do João VIII citado pelos cronistas medievais. “Nessa época, não existe, oficialmente, nenhum papa com o nome de Iohannes. Mas há muitos registros de Iohannes Anglicus, a papisa”, afirma Habicht, em entrevista à AH.

Além disso, apenas figuras reais eram retratadas nas moedas, principalmente em conjunto com o nome de um imperador franco que de fato existiu. Leão VI e Nicolau I, por exemplo, reconhecidos como pontífices legítimos pela Igreja Católica, tiveram suas representações em moedas semelhantes.

Até agora, as moedas foram atribuídas ao já citado João VIII oficial, que reinou de 872 a 882. “Mas esse papa tem um monograma diferente. E uma análise grafológica apoia a conclusão de que são diferentes assinaturas, de duas pessoas diferentes”, diz Habicht. “Quando o pontificado de Joana foi encoberto, o pontificado de Leão IV foi estendido até 855 e o de Bento III, até 858. Feitos históricos e clericais de Joana foram distribuídos entre ambos.”

Segundo ele, a história oficial sempre foi suspeita. “Os falsários cometeram vários erros. Dependendo do manuscrito, os atribuíram os feitos a um ou outro. Além dissso, no mais antigo manuscrito do Liber Pontificalis [registro dos papas], a vida de Leão IV termina no meio de uma palavra, o resto da página permanecendo vazia, e Bento III está completamente ausente.”

Documentos reforçam a teoria. “Uma crônica (Flacius et al) relata que Aethelwulf de Wessex visitou o papa Iohanes Anglicus (a papisa) em Roma para casaar sua filha Judith com o rei da França Ocidental (casamento que ocorreu em 856). Portanto, a papisa Joana devia estar na Santa Sé no verão de 856. E o cronista Conrad Botho relatou que o papa Iohanes coroou Luís II em 856 (quando oficialmente Bento III devia ser o papa).” 

A descoberta, se confirmada e aceita pela comunidade acadêmica, representa uma imensa reviravolta na história da Igreja Católica, que ainda hoje não admite mulheres em posições de liderança.

Letícia Yazbek e Thiago Lincolins


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