Notícias » Personagem

Pelo direito de morrer: A colombiana que quer uma eutanásia sem ter caso terminal

Os estágios mais avançados da doença de Martha Sepúlveda levam à paralisia do corpo, incapacidade de falar e dificuldade para respirar

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 31/10/2021, às 10h00

Martha Sepúlveda em janeiro de 2021, quando teve seu aniversário de 51 anos de idade
Martha Sepúlveda em janeiro de 2021, quando teve seu aniversário de 51 anos de idade - Divulgação/ Martha Sepúlveda/ Arquivo Pessoal

Martha Sepúlveda está no caminho para se tornar a primeira pessoa da Colômbia a passar por uma eutanásia sem que, para tanto, sofra de uma doença terminal. É sua segunda tentativa de realizar a cirurgia. 

A operação tornou-se possível para ela após julho de 2021, quando uma modificação feita na lei permitiu que pacientes com condições incuráveis que provocam "intenso sofrimento físico ou mental" também pudessem submeter-se ao processo.

O objetivo da mudança foi permitir à essas pessoas a oportunidade de uma "morte digna", segundo repercutido pelo UOL mais cedo neste mês de outubro. 

No caso da colombiana de 51 anos de idade, ela possui um quadro de esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença grave de caráter degenerativo, e, portanto, irreversível. 

Vale mencionar, porém, que essa é a segunda tentativa da paciente de encerrar sua vida através da prática médica.

Luta pelo direito de morrer

Martha já havia recebido autorização para fazer a eutanásia anteriormente, porém o procedimento foi subitamente suspenso no último 8 de outubro, quando faltavam apenas dois dias para a data marcada. 

A decisão do cancelamento foi realizada pela Comissão Científica Interdisciplinar pelo Direito de Morrer com Dignidade.

De acordo com um texto divulgado pela família da paciente, a razão da suspensão fora que o órgão teria julgado que a colombiana tinha "uma funcionalidade maior do que a reportada". A conclusão foi tirada após a mulher de 51 anos dar uma entrevista à Rede de TV Caracol. 

Martha durante entrevista ao canal Caracol / Crédito: Divulgação/ Youtube/ Notícias Caracol

 

Colômbia e eutanásia

O país havia descriminalizado esse procedimento em 1997, mas foi apenas em 2015 que sua realização começou a ser prevista na legislação colombiana. Nos últimos seis anos, um total de 157 eutanásias foram feitas no território. 

Até 2021, porém, a lei não previa a aplicação da prática médica a casos não terminais. A modificação foi uma notícia recebida com felicidade por Martha, segundo relatado por seu filho, Frederico, em uma entrevista à BBC. 

"Minha mãe está calma e feliz porque disseram que ela poderia morrer porque sua vida era literalmente um inferno", resumiu ele. 
Frederico Sepúlveda em entrevista ao canal Caracol / Crédito: Divulgação/ Youtube/ Notícias Caracol

 

Na conversa citada anteriormente, à Caracol, a colombiana também revelou um estado de espírito mais leve em vista da morte próxima. 

"Sou católica, me considero muito, muito crente. Mas Deus não quer me ver sofrer. Com a esclerose lateral no estado em que estou, a melhor coisa que pode me acontecer é ir descansar", afirmou ela. 

Segunda tentativa

A mulher contratou um advogado para representá-la após o cancelamento da operação. 

"Eles estão a forçando a viver uma vida que ela não deseja continuar vivendo, com sofrimento e uma dor que ela considera incompatíveis com sua ideia de dignidade", argumentou o profissional Lucas Correa, também conforme o UOL. 

Felizmente, após uma intervenção da Conferência Episcopal Colombiana, que pediu pela reconsideração da decisão, Martha ganhou uma nova autorização para se submter a uma eutanásia. 

Ainda não se sabe qual a próxima data marcada pela colombiana para a realização do procedimento, e, segundo seu representante legal, essa informação será mantida privada para priorizar a privacidade dos envolvidos.