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Perseguições e resistência armada: o que foi a Guerrilha do Araguaia

Na ditadura militar de 64, diversos grupos lutavam contra o regime, mas nenhum deles foi tão massacrado quanto a Guerrilha rural do Araguaia

Giovanna de Matteo Publicado em 28/10/2020, às 12h00

Grupo de guerrilheiros no Araguaia
Grupo de guerrilheiros no Araguaia - Wikimedia Commons

O período da ditadura militar no Brasil foi um dos mais obscuros da história nacional. Instalada através de um golpe de estado em 1° de Abril de 1964, o Brasil enfrentou 5 governos diferentes. Entre 1967 até 1974 os regimes dos militares Costa e Silva e Médici ficaram conhecido como os 'anos de chumbo'.

Foi durante esse tempo que o Brasil presenciou o auge da repressão e perseguição, com tudo o que uma ditadura tinha direito. O Ato Institucional N°5 incluiu a intitucionalização de cassações de mandatos e direitos políticos, até torturas e assassinatos pelas forças do Estado.

Com o perigo iminente, organizações de esquerda começaram a se articular cada vez mais, dessa vez em formato de guerrilhas urbanas e rurais, que seguiam os modelos criados por líderes revolucionários como Che Guevara e Mao Tsé-Tung. Esses grupos agiam na clandestinidade com o objetivo de tomar o poder e acabar com a ditadura militar.

A Guerrilha do Araguaia por sua vez foi uma tentativa de ação revolucionária de ideário comunista no Brasil, entre 1967 e 1974, que se instalava na região conhecida como “Bico do Papagaio”, na fronteira entre os estados do Pará, Maranhão e Tocantins, e levou esse nome pelo fato da região passar pelo rio Araguaia. 

Região da Guerrilha do Araguaia no mapa do Brasil / Wikimedia Commons

 

Seus membros eram voluntários, em sua maioria estudantes universitários intelectuais. A Guerrilha do Araguaia nasceu de uma área radical do PC do B (Partido Comunista do Brasil), que por sua parte, era dissidente do antigo PCB (Partido Comunista Brasileiro). Ambos foram extintos e proibidos durante o regime militar, agindo na ilegalidade.

Á medida que essa guerrilha rural se expandia entre as populações camponeses da área, os militares brasileiros trabalhavam na investigação para identificar a base dos rebeldes. Entre os principais comandantes das operações estavam os famoso coronéis Curió e Nilton Cerqueira.

O autor e historiador Elio Gaspari, em sua obra A Ditadura Escancarada, define o início da campanha do Exército contra a guerrilha: "... as operações militares foram conduzidas de forma a empurrar os guerrilheiros para as terras mais altas e secas, para emboscá-los quando descessem em busca de água. Essa tática resultara em três choques bem-sucedidos, com a captura e morte de seis guerrilheiros. Restavam em torno de 50 quadros (militantes treinados) do PC do B, e a Operação Marajoara corria o risco de repetir o fracasso dos ataques anteriores. Em dezembro, assumiu o comando das operações o coronel Nilton Cerqueira, que dois anos antes emboscara Carlos Lamarca no sertão baiano. Instalou seu posto de comando num curral de fazenda e mudou a tática. Jovens tenentes e capitães que entravam no mato insistiam há tempo que se deveria trocar a linha da cautela pela da agressividade.... Era a aplicação de um ensinamento das forças contrainsurrecionais: 'Guerrilha se combate com guerrilha'".

Corpos de guerrilheiros, observados por militares / Wikimedia Commons

 

Foram feitas três campanhas do governo contra a Guerrilha do Araguaia. As diferenças eram evidentes: O exército reuniu as três Forças Armadas e da Polícia Militar, com armamentos pesados e treinamento especializado. Algumas estipulações afirmam que havia entre 3.500 até 20 mil soldados, contra um grupo de comunistas de 69 a 90 pessoas, que ainda tinham alguma ajuda da população local.

Recentemente, testemunhos e documentos apresentados na Comissão da Verdade confirmaram que o Exército utilizou até mesmo napalm durante os combates com os militantes. Além disso, diversos camponeses foram investigados, passando por torturas e sequestros. 

Espiões chamados de arapongas, que trabalhavam no Centro de Informações do Exército (CIE), foram recrutados para se infiltrarem entre os locais. Sabe-se que ao menos 17 residentes daquela região desapareceram em dois anos de campanha militar, e mais de 100 passaram por interrogações brutas. Plantações e casas eram destruídas em nome das forças armadas, que acusavam os moradores de agirem como cúmplices dos guerrilheiros.

O último ataque aconteceu em outubro de 1974, quando Walkiria Afonso Costa, a última guerrilheira viva do grupo foi capturada e assassinada logo depois, no dia 25 do mesmo mês. As operações militares extinguiram a ação revolucionária, não deixando prisioneiros de guerra.

Tropas do exército brasileiro na região do Araguaia na década de 70 / Wikimedia Commons

 

Em 15 de março de 1975, o presidente Ernesto Geisel anunciou oficialmente ao Congresso o expurgo das bases do Araguaia. Segundo suas palavras, elas estavam "completamente reduzidas".

Com o fim da Guerrilha do Araguaia, outros grupos formados por guerrilheiros iam se desarticulando e perdendo força. O medo pairava no ar com as cassações, perseguições, exílios, torturas e assassinatos. Com isso, grupos populares independentes, sindicatos, artistas intelectuais e o MDB lideravam a oposição, tomando o lugar das resistências armadas. 

Após o fim da ditadura, na década de 90, quatro expedições foram arranjadas para buscar as ossadas dos combates mortos. Até hoje, somente dois corpos reconhecidos como de militantes do Araguaia foram encontrados.


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