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Pesquisa revela como sepultamento de 1.000 anos foi usado como ferramenta política por nazistas e soviéticos

Encontrado em 1928, esse guerreiro tcheco foi utilizado para afirmar a ideologia ariana de Hitler e provar suas teses racistas

André Nogueira Publicado em 14/08/2019, às 14h00

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- Reprodução

Depois de anos de mistério, um estudo publicado na revista Antiguity revelou a trágica jornada de um esqueleto medieval que foi usado como ferramenta política dos alemães e dos russos durante o século 20.

Trata-se da ossada de um guerreiro de 1.000 anos que foi desenterrado em 1928 no Castelo de Praga, Tchecoslováquia, por Ivan Borkovsky, proeminente arqueólogo ucraniano de ascendência tcheca.

Esta sepultura chamou atenção pela singularidade das armas com que o guerreiro foi enterrado. Diferentemente dos mais de 1.500 enterros medievais da época, este ícone do passado estava com uma espada especial, além de diversos objetos de regiões diferentes, o que determina um valor inestimável que tinha em sociedade.

No entanto, diz Nicholas Saunders, que assina o trabalho sobre os restos encontrados, colocou-se o guerreiro como essencial na mitificação da identidade checa e, depois, ele foi usado pelos nazistas como reafirmação da ideia de que a Europa central é nórdica e germânica. Os projetos étnicos e políticos de Hitler corromperam as informações sobre esse importante achado da arqueologia.

Equipe desloca bloco do sepultamento em 1928 / Crédito: Reprodução

 

Os soviéticos usaram a figura deste guerreiro para a agenda política russa. “Ele [o guerreiro] foi envolvido no turbilhão das guerras do século 20 e as inconstantes ideologias políticas que os acompanharam”, afirma Saunders.

Quando os alemães invadiram a Tchecoslováquia, diversos intelectuais nazistas se esforçaram para reescrever a História e impor a visão racista ariana sobre a retrospectiva histórica. Segundo essa versão, o esqueleto checo medieval era de um viking nórdico.

Quando o Exército Vermelho marchou sobre o III Reich, os russos ocuparam a Tchecoslováquia e aproveitaram o peso da relíquia arqueológica. Pelo fato de Borkovsky ser um anticomunista, a URSS usou o guerreiro como forma de barganha: se o arqueólogo não quisesse ir para o gulag, deveria divulgar a ideia de que aquele era o sepultamento de um nobre da dinastia eslava de Przemyslid, o que beneficiaria a visão soviética da História.

“O velho debate sobre se esse homem era germânico ou eslavo é simplesmente um sintoma das ideologias do século 20”, coloca Saunders. Para a Idade Média, essas categorias nem fazem sentido.