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Pesquisador utiliza fermento do Egito Antigo para assar pão

Adormecidos há 5 mil anos debaixo de cerâmicas egípcias, micróbios puderam ser reativados

Joseane Pereira Publicado em 08/08/2019, às 09h00

Pão egípcio
Reprodução

O egiptólogo amador Seamus Blackley, junto a uma equipe de pesquisa, extraiu e isolou leveduras há muito adormecidas em objetos egípcios para realizar uma façanha nunca antes vista: a reprodução dos pães consumidos pelos egípcios de 5 mil anos atrás.

Renascimento do pão

Com auxílio da arqueóloga Dra. Serena Love, Blackley teve acesso às embarcações egípcias que carregavam suprimentos como pão e cerveja, conservadas em dois museus da cidade de Boston. O primeiro passo foi identificar e extrair a levedura de objetos cerâmicos das embarcações, alcançado com ajuda do microbiologista Richard Bowman, da Universidade de Iowa.

Cultivo da levedura / Crédito: Reprodução

 

Injetando nutrientes nas cerâmicas para alimentar os micróbios inativos, o Dr. Bowman conseguiu extrair e identificar cepas de leveduras. A maioria foi enviada para análises laboratoriais, e o restante foi cultivado por Seamus Blackley com água, gãos antigos e recipientes esterilizados. "A cultura pode dormir e ser trazida de volta", afirmou ele. "Leveduras são criaturas muito robustas."

Por uma semana, Blackley alimentou as leveduras com grãos de cevada moídos naturalmente e uma antiga espécie de trigo chamada einkorn, domesticada há cerca de 10 mil anos. Apesar de difíceis de assar por conter pouco glúten, os grãos combinaram perfeitamente com o fermento de 5 mil anos.

Crédito: Reprodução

 

"Eles criaram uma estrutura agradável e um miolo de bolo - muito macio. Cheirava muito diferente das leveduras modernas e as bolhas eram menores: menos pungentes, mas mais ativas", afirmou Blackley. O aroma era de caramelo e o sabor, mais adocicado que os pães modernos. Para dar o toque final, o Sr. Blackley marcou a massa com um hieróglifo representando um pedaço de pão.

"Enquanto esta cultura estava dormindo, o trigo moderno foi inventado", afirmou Blackley. Para se ter uma ideia, quando a mais antiga das pirâmides de Gizé foi construída, há 4.500 anos, as leveduras já tinham a idade de 700 anos.

Resultado / Crédito: Reprodução

 

Próximas etapas

Agora, os pesquisadores trabalharão com ceramistas para recriar antigas panelas de cerâmica egípcias e começar a assar o pão nelas. Junto a isso, os genomas das leveduras serão sequenciados para rastreamento do desvio genético ao longo dos séculos. "Este é exatamente o tipo de coisa que a arqueologia pretende fazer, sendo fundamentado na ciência. Isso será publicado em uma revista acadêmica", afirma a Dra. Love.

Também se pretende coletar mais amostras, dos reinos Antigo, Médio e Novo, separadas por cerca de 700 anos. O plano é que as leveduras antigas sejam apresentadas a um público mais amplo, e a equipe já teve permissão de mais um museu para extrair amostras. “Estamos tentando descobrir uma maneira de comercializar isso. Gostaríamos de fazer algo para vender, talvez coletando receitas antigas”, afirmou Blackley. "Esta foi uma grande civilização e tradição gastronômica. O faraó era o imperador de toda a terra conhecida. Agora, podemos recriar seus métodos e compartilhar o pão deles."