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Possível múmia mais antiga do mundo não pertence ao Egito

Uma recente descoberta feita em Portugal trouxe uma novidade arqueológica surpreendente

Redação Publicado em 15/03/2022, às 17h50 - Atualizado em 18/05/2022, às 17h38

O processo de mumificação apontado pelos pesquisadores
O processo de mumificação apontado pelos pesquisadores - Divulgação/Peyroteo-Stjerna et al/European Journal of Archaeology

Anualmente, o Egito surpreende os amantes de arqueologia ao revelar curiosas descobertas. Revelações de tumbas, estátuas e múmias da antiga civilização que prosperou às margens do Nilo são cruciais para entender o passado.

No entanto, apesar das grandes revelações feitas no Egito, se engana quem imagina que a múmia mais antiga do mundo pertence ao país africano. No Vale do Saldo, em Portugal, uma descoberta muda essa errônea ideia que temos em mente. 

No país, um corpo mumificado há 8.000 anos pode compreender a mais antiga múmia já revelada, até o momento.

Encontrada ao lado de outras doze múmias no Vale do Saldo durante escavações realizadas em 1960, a pesquisa instigante fora publicada na European Journal of Archeology. 

Divulgação/Peyroteo-Stjerna et al/European Journal of Archaeology

A descoberta

Apesar da data da revelação, nos anos 1960, os restos mortais somente foram fotografados por Manual Farinha dos Santos, arqueólogo que morreu em 2001.

Todavia, as imagens não tinham sido alvo de estudo até a importante descoberta feita. As intrigantes imagens feitas pelo fotógrafo compreendem filmes fotográficos em preto e branco dos corpos enterrados nos sambaquis de Poças de São Bento e d'Arapouco. E registraram a descoberta de 13 covas do período Mesolítico.

A documentação do local, incluindo mapas desenhados, já estava no Museu Nacional de Arqueologia de Lisboa, no entanto, os registros feitos em preto e branco não eram de conhecimento dos pesquisadores. 

Os registros /Crédito: Divulgação/Peyroteo-Stjerna et al/European Journal of Archaeology

Ao usarem os registros, até então, desconhecidos, os pesquisadores foram capazes de reconstruir os sepultamentos. Mas o que levou a novidade a respeito da múmia de 8.000 anos?

Curiosamente, os profissionais envolvidos no estudo perceberam que os ossos presentes em um dos esqueletos pareciam hiperflexionados, assim indicando que foram amarrados.

O item usado para conseguir esse efeito foi apertado até mesmo depois do óbito, como explicou Rita Peyroteo-Stjerna, bioarqueóloga da Universidade de Uppsala em Suécia, ao LiveScience. 

O padrão incomum apresentado por ARA1962, desconhecido 3, ou seja, a combinação da posição do corpo e a manutenção das articulações lábeis dos pés, sugere que, além de envolto, este corpo pode ter sido dessecado através da mumificação antes do enterro. Não está claro se o envoltório ainda estaria no lugar naquela época, ou se o corpo, então transformado pela mumificação, teria sido colocado na sepultura sem o envoltório", descreve a pesquisa.

Estado do corpo

Também chamou atenção que o esqueleto parecia encaixado no local onde fora enterrado, ou seja, articulado. Quanto ao estado do corpo, vale ressaltar que o solo não apresentou sinais de movimentação após a decomposição dos tecidos moles do antigo cadáver, o que faria com que fosse encolhido, e o seu vazio preenchido com sedimentos. 

Como consequência, isso pode indicar que a decomposição não ocorreu. Esse cenário total analisado pela pesquisa representa evidência de que o corpo foi mumificado após o óbito, e teria sido até mesmo dissecado e compactado com o item usado para amarrá-lo. 

"A manipulação do corpo durante a mumificação manteria a integridade anatômica do esqueleto e garantiria uma posição corporal desejada. Nesse caso, o tratamento pré-sepultamento permitiria que o corpo fosse curado por algum tempo e facilitaria seu transporte (sendo mais contraído e significativamente mais leve que o cadáver fresco), garantindo que ele fosse enterrado mantendo sua integridade anatômica", explica a pesquisa.

O processo de mumificação apontado pelos pesquisadores /Crédito: Divulgação/Peyroteo-Stjerna et al/European Journal of Archaeology

Outras técnicas

Conforme repercutido pela LiveScience, para determinar se houve mumificação, o estudo também contou com descobertas feitas através de experimentos de decomposição humana, realizados no Centro de Pesquisa de Antropologia Forense da Universidade Estadual do Texas. Um dos pesquisadores envolvidos na atual descoberta estudou na instituição.

Seguindo essas descobertas feitas, é possível que o antigo corpo tenha sido amarrado e possivelmente colocado numa estrutura elevada, - uma plataforma, por exemplo -, assim possibilitando que os fluidos de decomposição presentes fossem drenados, acreditam os pesquisadores envolvidos no estudo. 

Outros cenários

Os pesquisadores também descreveram outros possíveis cenários. Esse processo de mumificação pode ter incluído o fogo com o objetivo de secar o corpo. Além disso, as amarras eram apertadas ao longo do tempo, mantendo o formato anatômico e possibilitando a flexão dos membros. 

Também é possível que a transformação tenha incluído o uso do fogo, que também precisaria de atenção. Com o tempo, as bandagens teriam sido apertadas para sustentar e reter a integridade anatômica do falecido enquanto aumentavam a pressão bilateral no corpo e a flexão dos membros", diz o estudo. 

A descoberta de 8.000 anos, nesta pesquisa, é única. Apesar de outros corpos presentes no Vale do Saldo indicarem sinais de mumificação, eles não se aproximam no que foi feito no esqueleto, que agora configura a possível múmia mais antiga do mundo.

Os pesquisadores acreditam que os corpos foram levados de outro local e sepultados no Vale do Saldo. Como consequência, parte do processo de mumificação (os sinais encontrados) pode ter sido realizado com o intuito de facilitar o transporte desses restos mortais, que ficariam menores e também mais leves.