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Primeira transfusão de sangue aconteceu neste dia, em 1667

Fluido da vida e da morte, a substância só começou a ser desvendada a partir do século 17

Wilson Weig Publicado em 15/06/2018, às 07h01

Foi apenas no século 20 que a hematologia realmente progrediu
Foi apenas no século 20 que a hematologia realmente progrediu - Shutterstock

Os primeiros hominídeos provavelmente já associavam a perda de sangue à morte. Muito tempo haveria de passar, porém, até que se pensasse de modo inverso: seria o líquido também capaz de salvar vidas? Em 15 de junho de 1667, o médico francês Jean-Baptiste Denis realizou a primeira transfusão sanguínea em um ser humano. Um garoto de 15 anos recebeu o sangue de uma ovelha e sobreviveu. Os resultados positivos encorajaram o médico a fazer uma nova transfusão, dessa vez em um homem de 45 anos que estava paralisado em uma cadeira de rodas. Um dia depois de receber sangue de um carneiro, o homem voltou a andar.

Antes que transfusões e hemogramas se tornassem procedimentos de rotina, as descobertas a respeito do sangue avançaram lentamente e as pesquisas sobre seu uso terapêutico foram uma sucessão de tentativas e erros. Principalmente erros – como a institucionalização da sangria como cura para todos os males. Procedimentos para "afinar o sangue" foram adotados por todas as grandes civilizações do mundo antigo (um desenho de 2500 a.C., encontrado numa tumba egípcia, mostra um paciente sangrando no pé e no pescoço) e permaneceram no topo das recomendações médicas até bem depois do Renascimento.

Segundo Dante Marcello Gallian, diretor do centro de história e filosofia das ciências da saúde da Unifesp, "a função fisiológica do sangue começou a ser elucidada somente no século 17". Até então, esse tecido conjuntivo em forma líquida, que transporta oxigênio, gás carbônico, nutrientes e toxinas, seguiu envolto em uma aura mística, que disfarçava a ignorância sobre suas verdadeiras atribuições.

Jean-Baptiste Denis Wikimedia Commons

Apesar de 400 anos de descobertas pontuais (e importantes, obviamente), foi apenas no século 20 que a hematologia (o ramo da medicina que estuda o sangue) realmente progrediu.

Show de horrores

"Somente esforça-te para que não comas o sangue, pois o sangue é vida", diz o Deuteronômio, um dos livros do Antigo Testamento. Tão ou mais antiga que a Bíblia, essa concepção sagrada do líquido como "fluido da vida" nunca foi o bastante, porém, para abalar o prazer que as multidões desfrutavam frente aos espetáculos sanguinolentos. Ou talvez até por isso. Povos pré-colombianos, como os maias e os astecas, acreditavam que sacrifícios humanos eram o melhor presente oferecido aos deuses a fim de garantir colheitas abundantes e outras benesses. No Império Romano, gladiadores enfrentavam-se nas arenas em duelos que só terminavam com a morte de um dos oponentes. Outra diversão popular da época era apreciar cristãos destroçados por leões e tigres. Por séculos, decapitações, empalações e outras torturas praticadas em praça pública foram os melhores programas de domingo para a turba. Parece algo distante? É só impressão. A derradeira condenação à guilhotina na França aconteceu há pouco mais de 40 anos, em 1977. (Para não falar das execuções cruéis ainda adotadas, a exemplo do apedrejamento.)

"O horror ou a atração pelo sangue sempre estiveram no inconsciente coletivo, que é uma espécie de herança de sentimentos, sensações e imagens compartilhada por toda a humanidade", afirma Gallian. Lendas sobre bebedores de sangue atravessaram os tempos nesse imaginário popular: há indícios de que os egípcios, há 3 mil anos, já acreditavam no poder de certas pessoas de sugar a força e as virtudes de outras. Mas foi o escritor irlandês Bram Stoker quem consolidou o mito literário do vampiro em sua obra Drácula. Inspirado tanto no imaginário primitivo como na personagem real de Vlad III, o Empalador, que viveu no século 15. Príncipe da Valáquia (uma região da atual Romênia), o conde Drácula cristalizou uma visão sexualizada do vampiro que faz o fascínio por essa estirpe inesgotável. A prova viva (ou melhor, morta-viva) está nos lucros da série Crepúsculo e de seriados como True Blood. Nesse último, vampiros bonitões (e outros seres bizarros, como metamorfos e lobisomens) frequentam bares onde bebericam sangue artificial.

Quatro humores

A principal tentativa de explicar a fisiologia do sangue e sua relação com as doenças, a teoria dos quatro humores, dominou a ciência médica ocidental por mais de um milênio, atravessou a Idade Média e chegou à era moderna. Consagrada por Hipócrates, o pai da medicina, e encampada mais tarde pelo filósofo Galeno de Pérgamo, a teoria se sustentava numa suposta relação direta entre o universo e o homem. "O equilíbrio e a harmonia do Cosmo se refletiam na saúde do microcosmo, o corpo", diz Pedro Carlos Lemos, professor de cirurgia da faculdade de medicina da USP. Em analogia aos quatro elementos formadores de tudo o que existe (terra, água, fogo e ar), quatro humores (no sentido de líquidos) em circulação pelo corpo regulariam o funcionamento do organismo e o temperamento humano: o sangue, a fleuma (ou linfa), a bile amarela e a bile negra. Relacionados, respectivamente, a coração, pulmões, fígado e baço, cada humor exibia uma qualidade - umidade, secura, calor e frio -, que definia os tipos de personalidade.

Segundo a teoria grega, indivíduos do tipo sanguíneo seriam extrovertidos e cheios de energia, e os fleumáticos, tímidos e reservados. Os coléricos estariam sujeitos a ímpetos de raiva e irritação. Os melancólicos, por fim, se mostrariam predispostos à tristeza. "A saúde seria o resultado do equilíbrio dos humores, que, em excesso ou falta, provocariam as doenças físicas e mentais", afirma Lemos. Na falta de resposta às dúvidas, sobravam bolas na trave. "Chegou-se a acreditar que o sangue fosse o combustível do corpo. Produzido no fígado, seguiria para o coração e, dali, para os outros órgãos."

Primeiras transfusões em seres humanos foram realizadas com sangue de animais Reprodução

No século 17, o médico britânico William Harvey decifrou o funcionamento do sistema circulatório e o papel do coração no bombeamento do sangue. Seu estudo De Motu Cordis, de 1628, descreve detalhadamente a circulação, mas deixa lacunas, como o enigma da função dos pulmões. Ainda durante muito tempo permaneceria a crença de que o papel desse órgão seria "resfriar" o sangue.

Entra e sai

Era inevitável pensar que, se a saída do sangue podia curar, por que não sua entrada no corpo? De volta ao contexto místico, esta era uma noção muito antiga: em algumas sociedades, ingerir o sangue de inimigos derrotados era uma forma de aproveitar suas virtudes. Na obra História Natural, escrita em 77, o naturalista Plínio, o Velho, descreve cenas impressionantes de gente que invadia as arenas romanas para beber o sangue dos gladiadores moribundos e, assim, absorver sua força. A prática, dizia-se, era especialmente eficaz contra a epilepsia.

Apesar de aqui e ali despontarem relatos de cientistas que experimentavam injetar substâncias na corrente sanguínea (como vinho em cães de caça), as primeiras transfusões bem-sucedidas registradas oficialmente aconteceram apenas em 1665: um médico da Universidade de Oxford, Richard Lower, inovou usando tubos para transferir sangue entre animais.

Dois anos depois, foi a vez de Denis realizar seu experimento. Entusiasmado com os bons resultados das primeiras transfusões, o médio quis dar um passo além e injetou sangue de bezerro em um rapaz violeno, na tentativa de amansar seu temperamento. O saldo do experimento bizarro, como não poderia deixar de ser, foi a morte do infeliz. Acusado de homicídio, Denis foi julgado e inocentado, mas uma sequência de malfadadas (e quase sempre trágicas) transfusões posteriores levou a sociedade médica parisiense e, mais tarde, os parlamentos francês e inglês a declararem a prática ilegal.

Desistir, jamais. Em 1818, o obstetra inglês James Blundell realizou a primeira transfusão de sucesso feita com sangue humano. Foi numa paciente com hemorragia pós-parto: ele extraiu uma porção do sangue do braço do marido dela e aplicou na mulher com uma seringa. Simples assim. Entre 1825 e 1830, Blundell foi feliz em cinco entre dez transfusões - 50% de acerto pode ser considerado uma boa marca para a época - e ainda projetou diversos instrumentos para serem usados no procedimento. Dez anos depois, em 1840, assessorou em Londres o médico Samuel Armstrong Lane durante a primeira transfusão total de sangue, feita num doente hemofílico.

Mistérios desvendados

O trem da ciência já não parava em nenhuma estação. Depois de o médico austríaco Karl Landsteiner identificar, em 1901, os três primeiros tipos sanguíneos (A, B e O) e, um ano mais tarde, outros pesquisadores acrescentarem à lista o quarto (AB), as transfusões foram incorporadas de vez à prática médica. Seguiram-se a descoberta da composição do sangue e a identificação da medula óssea como o órgão responsável pela fabricação de elementos como hemácias e plaquetas.

Resultados negativos fizeram com que as transfusões fossem consideradas ilegais Reprodução

O achado de uma substância anticoagulante (citrato de sódio), em 1914, passou a permitir o armazenamento de sangue por períodos mais longos. Não havia tempo a perder, e os ingleses rapidamente usaram seus estoques para tratar soldados na Primeira Guerra. Em 1926, a Cruz Vermelha britânica instituiu o primeiro serviço de transfusão do mundo. Quando Landsteiner e Alexander Weiner identificaram o fator Rh, entre 1939 e 1940, praticamente tiveram fim as reações adversas registradas durante as transfusões. O sangue não era mais divino nem espiritual, mas simplesmente humano.

Na década de 1960, a identificação dos Antígenos Leucocitários Humanos, presentes nas células brancas do sangue (composto ainda de células vermelhas, plaquetas e plasma), desvendou o papel desempenhado por essas proteínas na compatibilidade entre doador e receptor nos transplantes de órgãos - o principal obstáculo para o sucesso das cirurgias é a resposta imune do receptor (a rejeição). "O desenvolvimento da imunogenética abriu caminho para os primeiros transplantes de rim, pulmão, pâncreas, coração e medula óssea nos anos seguintes", diz José Salvador Rodrigues de Oliveira, hematologista da Unifesp.

A distribuição dos hemoderivados favoreceu também a disseminação de enfermidades. Apenas nos anos 1970, ficou claro que o sangue poderia transmitir vírus e doenças como a hepatite. Na década seguinte, seriam identificados o HIV e a aids. "A propagação das doenças exigiu medidas disciplinadoras - entre elas, um maior controle dos doadores e da atuação dos bancos de sangue. Foram também implantados testes para a detecção de doenças transmissíveis", afirma Rodrigues.

Passaram-se anos desde que geneticistas identificaram o papel das células-tronco na formação dos tecidos. "A descoberta de que, nos embriões, elas se transformam em tecidos orgânicos, como ossos, nervos, músculos e sangue, abriu infinitas possibilidades para sua utilização na recuperação de órgãos danificados por doenças e traumas", diz o hematologista. Como isso implica no sacrifício do embrião, há muita polêmica envolvendo cientistas, religiosos e especialistas em ética, o que tem retardado as pesquisas. Em 2010 pesquisadores da empresa Geron anunciaram que usariam células-tronco embrionárias para reconstruir as medulas de dez pacientes paraplégicos acidentados havia pouco tempo. O experimento teve o aval do governo americano. Segundo Rodrigues, o sucesso dos testes abriria caminho para uma revolução na medicina.

Outras experiências tentam, por exemplo, extrair células-tronco do sangue menstrual. E existe um mercado para armazenar o sangue do cordão umbilical de recém-nascidos (com empresas de plantão nas maternidades). Testes indicam que as células-tronco oriundas daí podem ser eficazes no tratamento de doenças como a leucemia.

Saiba mais

Estudo Anatômico do Movimento do Coração e do Sangue nos Animais, William Harvey, Editora Unifesp, 2009.