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Mais lidas: Príncipe gay da Índia assume frente em luta contra ‘terapia de conversão’

Primeiro membro da comunidade LGBTQIA+ a assumir a sexualidade na realeza, ele é alvo de represálias familiares públicas

Wallacy Ferrari e Fabio Previdelli Publicado em 20/04/2022, às 11h32 - Atualizado em 24/04/2022, às 07h00

Manvendra Singh Gohil em evento em 2011
Manvendra Singh Gohil em evento em 2011 - Getty Images

O príncipe real Manvendra Singh Gohil, conhecido por ser o primeiro membro da dinastia indiana a assumir a homossexualidade, no ano de 2006, está aproveitando sua projeção dentro da família mais importante do país para auxiliar a comunidade LGBTQIA+ na luta contra a chamada ‘terapia de conversão’.

Singh Gohil é o 39º descendente direto da dinastia Gohil Rajput da Índia. Ele relembrou, em entrevista a revista Insider, que sua defesa aos direitos causaram revolta na época da revelação:

No dia em que saí, minhas efígies foram queimadas. Houve muitos protestos, as pessoas saíram às ruas e gritaram slogans dizendo que eu trouxe vergonha e humilhação para a família real e para a cultura da Índia”, disse ele.

Contudo, em sua luta contra a ‘terapia de conversão’, ele tornou pública a tentativa da família ao submetê-lo ao tratamento durante o crescimento, com práticas desumanizantes ao tentar o convencimento forçado de que a sexualidade ou a identidade de gênero do indivíduo é incorreta.

De acordo com ele, os parentes ficavam ainda mais irritados com o fato dele ser gay recebendo uma educação de alto nível e custo: “Eles procuraram médicos para operar meu cérebro para me tornar heterossexual e me submeteram a tratamentos de eletrochoque”, acrescentou.

Homossexualidade tratada como patologia 

Apesar de ser um pensamento ultrapassado, a terapia de reorientação sexual, como também pode ser chamada, ainda está em voga em diversos países do mundo. Segundo matéria do The Washington Post, esses métodos começaram a ser implantados em meados do século 19, quando qualquer outra identidade de gênero divergente da normativa heterossexual passou a ser considerada como uma patologia. 

Uma pesquisa feita pelo Governo britânico em junho de 2017, que contou com mais de 108.000 pessoas LGBTQ+ da Grã-Bretanha apontou que 2% dos entrevistados já participaram, de alguma forma, de terapias de conversão; enquanto 5% informaram que o método já fora oferecido. 

Apesar disso, desde o final do século 20, a opinião pública e médica vêm mudando sobre o tema, como mostra um relatório da Human Rights Watch de 2017, que abordou a terapia de conversão de gays na China, concluiu que "agora há um consenso global entre os corpos médicos profissionais de que a terapia de conversão com a intenção de 'curar' a homossexualidade é ineficaz, antiética e potencialmente prejudicial". 

Algo que é corroborado por um estudo com adultos transgêneros dos Estados Unidos, divulgado no portal JAMA Psychiatry, que descobriu que a exposição à terapia de conversão de identidade de gênero estava associada a maiores chances de tentativa de suicídio. 

Um relatório de 2019, do Williams Institute da Escola de Direito da Universidade da Califórnia em Los Angeles, revelou que cerca de 700.000 adultos LGBTQ+ passaram por alguma foram de terapia de conversão no país. 

Além disso, na China, um em cada cinco adolescentes transgêneros relataram que foram forçados à terapia de conversão, segundo aponta pesquisa da Thomas Reuters Foundation de 2019. Na Malásia, por sua vez, líderes políticos e religiosos promovem a prática publicamente.  

Já a Indonésia, ativistas LGBTQ+ foram ameaçados de “estupro corretivo” por se oporem a um projeto de lei que propõem que pessoas sejam forçadas a se submeterem às terapias, como aponta matéria do The Washington Post.